Demanda encolhe e planos para frotas sao revistos

Valor Econômico

06-01-08
Demanda encolhe e planos para frotas são revistos
Roberta Campassi, de São Paulo

Depois de ter alcançado US$ 145 em 2008, o preço do barril do petróleo em torno dos US$ 50, como agora, não é mais um temor para as companhias aéreas. Agora, por outro lado, elas são assombradas pela desaceleração da demanda por viagens. E em 2008, pela primeira vez desde 2004, o tráfego aéreo dentro do Brasil pode ter crescido abaixo de dois dígitos.

As projeções variam. A TAM prevê que a demanda tenha crescido entre 6% e 9%, e a Gol, 6%. A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), calcula que o aumento fique entre 4% e 5%, se o PIB crescer em torno de 2% como apontam algumas projeções. Em outubro e novembro de 2008, já houve encolhimento da demanda por passagens aéreas de 3,9% e 1%, respectivamente, sobre os mesmos meses de 2007.

É um movimento oposto ao que ocorria até setembro, quando o tráfego crescia 10,2% no acumulado de nove meses.

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"O cenário de demanda é bem pior do que se imaginava seis meses atrás", diz Andre Castellini, sócio da consultoria Bain & Company. E um dos riscos para as empresas em 2009, segundo ele, é o descompasso entre a demanda e o tamanho da oferta de assentos. Com base na expansão vertiginosa dos últimos anos, as companhias aéreas desenharam planos de frota ambiciosos. "Quando as empresas fizeram suas encomendas de aeronaves, não previam uma crise econômica. Esse desequilíbrio poderá ocorrer neste ano."

Ronaldo Seroa da Motta, diretor da Anac, diz que as companhias aéreas têm duas opções para lidar com o tráfego aéreo menos vigoroso: ganhar eficiência e baixar tarifas, para tentar atrair os passageiros mais suscetíveis ao preço, ou reduzir a oferta. "Esse ganho de eficiência pode se dar pelo aumento da concorrência, daí a importância de manter as portas abertas para novas empresas aéreas", diz.

O consumidor já começou a comprar tarifas mais baixas desde novembro, quando empresas como Gol, TAM e a novata Azul iniciaram promoções. Para Castellini, um cenário de demanda mais fraca e petróleo mais baixo gera uma tendência de redução das tarifas. "Por outro lado, há a valorização do dólar que impacta no custo das empresas. O efeito líquido de tudo isso deveria ser uma certa queda nos preços", diz.

"Seria futurologia dizer quanto o preço da passagem pode mudar em 2009", afirma Tarcísio Gargioni, vice-presidente de marketing e serviços da Gol. "Vamos continuar com uma política para incentivar o tráfego", diz. Segundo ele, a empresa vai fomentar o uso maior do seu programa de parcelamento em até 36 vezes para atrair o viajante a lazer e o uso do programa de milhagem Smiles, mais voltado para o cliente corporativo.

Em relação à oferta, as líderes do mercado TAM e a Gol não prevêem crescimento tão grande na frota quanto em anos anteriores – a primeira empresa vai incorporar mais cinco aviões em 2009, sendo dois para vôos internacionais de longo curo, e a segunda, mais quatro. No fim de 2009, elas deverão ter 130 e 108 jatos, respectivamente. A WebJet já adiou a chegada de alguns aviões e a OceanAir não tetem projeção definida, sendo que o número de aeronaves poderá variar em função do comportamento da economia. A regional Trip poderá ter 24 aviões no fim de 2009, quatro a mais do que neste ano.

O grande aumento da oferta em número de aeronaves ficará por conta da novata Azul, que iniciou vôos no dia 15 de dezembro. A empresa já tem uma frota de cinco aviões e pretende chegar a 16 até dezembro do ano que vem. A sede operacional foi erguida em Campinas, cidade paulista até hoje só explorada como base de operações pela Trip. Por ter como objetivo fazer vôos diretos em capitais e grandes cidades que hoje não são oferecidos na mesma quantidade pelas demais empresas, a Azul vem afirmando que conseguirá criar uma demanda nova, sem precisar "roubá-la" das concorrentes.

Mas caso a desaceleração do tráfego aéreo seja ainda mais forte do que o previsto, algumas companhias já definiram um plano B. No seu último evento para analistas e investidores, a TAM, que é líder com 51% do mercado doméstico, disse que poderá voar menos horas com seus aviões caso a retração da demanda seja superior ao previsto. A medida, contudo, acarretaria na redução da produtividade e do ganha do escala.

A Trip, por sua vez, conta com a possibilidade de poder acelerar a devolução de seus aviões mais antigos à fabricante sem alterar o recebimento de equipamentos novos. Por enquanto, a companhia planeja devolver quatro dos doze ATRs 42 que utiliza hoje, mas diz que poderá aumentar esse número. A empresa receberá, novos, quatro ATRs 72, que devem somar 11 em 2009, e os primeiros cinco jatos da ERJ 175 da Embraer. Ao todo, a oferta da empresa vai crescer 70% – a oferta é medida pelo número total de assentos multiplicado pelo total de quilômetros a serem percorridos. "Ainda existem muitas oportunidades para a aviação regional", afirma José Mario Caprioli, principal executivo da Trip. O número de cidades atendidas deverá passar de 67 para 86.

Caprioli acredita que o primeiro semestre do ano será mais fraco e que as taxas de ocupação nos vôos vão ficar cerca de dois pontos menores do que a média histórica da empresa, em torno de 64%. Já para a segunda metade do ano, ele espera estabilidade em relação a 2008. A Trip tinha 1,3% de participação em novembro.

A OceanAir, empresa com uma fatia de 2,5% no mercado doméstico, está mantendo o plano de frota em aberto. Depois de cortar mais da metade da frota e demitir cerca de 600 pessoas no ano passado, como parte de uma reestruturação, voa hoje com onze aeronaves. O presidente da OceanAir José Eframovich, afirma que a empresa tem opção de receber, neste ano, até oito aeronaves da Airbus dos modelos 319 e 320, mas é provável que adie o crescimento para 2010. Esses aviões, segundo Efromovich, poderão ser encaminhados à Avianca, companhia aérea colombiana cujo controlador, o grupo Sinergy, é o mesmo da OceanAir.

A WebJet, por sua vez, adiou o recebimento de quatro Boeings 737-300 do primeiro para o segundo semestre deste ano. A companhia, que pertence à operadora de turismo CVC, voa hoje com 11 aeronaves e tem uma fatia de cerca de 3,7% do mercado doméstico.

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