Notícias Vasp – 179 – Matéria do portal IG de 23.11.2010 – Reportagem com dados muito interessantes e completa

Fazenda de R$ 615 milhões vai a leilão para pagar dívida da Vasp

A venda da Piratininga, que tem 252 mil hectares e 110 mil cabeças de gado, divide funcionários e dá esperança para os credores

São 11 horas quando a sirene toca para avisar que o almoço está servido. Lentamente, os funcionários que dão expediente na sede administrativa da fazenda se deslocam para o refeitório. São cerca de 15 pessoas que chegam a pé, de bicicleta ou carro. O zunzunzum que logo toma conta do ambiente gira em torno de dois assuntos: o calor que há meses castiga a região e o leilão da propriedade, marcado para esta quarta-feira, 24, em São Paulo. Com 252 mil hectares, 110 mil cabeças de gado e 100 mil metros quadrados de área construída, a Piratininga é considerada uma das maiores e mais produtivas fazendas do Brasil. Alguns anos atrás, metade dela foi penhorada pela Justiça para pagar quase R$ 1 bilhão em dívidas trabalhistas que seu proprietário, o empresário Wagner Canhedo, deixou penduradas com a falência da Vasp, em 2008. A expectativa causada pelo leilão rachou os funcionários da fazenda e trouxe esperança para aqueles que ainda esperam receber dinheiro da companhia aérea. “A decisão da juíza me pegou de surpresa, a fazenda ainda tem pendências judiciais”, disse Canhedo ao iG por telefone após a reportagem ser publicada e tentando não demonstrar preocupação com a venda.

Com sede em São Miguel do Araguaia, município de 21 mil habitantes a 480 quilômetros de distância da capital, Goiânia, a Fazenda Piratininga enche os olhos até mesmo de quem está acostumado a trabalhar com grandes propriedades. A começar pela área, mais do que o dobro da cidade do Rio de Janeiro. Os inúmeros pastos estão espalhados por três municípios: além de São Miguel do Araguaia, eles se estendem por Araguaçu e Sandolândia, ambos no Tocantins. As terras são entrecortadas por quatro rios, incluindo o Araguaia, que empresta nome à novela da Globo. Juntas, as estradas de cascalho somam 3,6 mil quilômetros – distância suficiente para viajar entre São Paulo e Rio Branco, no Acre. Não se trata de qualquer estrada. A situação delas é tão boa que é possível atingir velocidade de até 100 quilômetros por hora, mais rápido do que em muitos trechos da esburacada GO-164, que liga Goiânia ao norte do Estado. A rede viária inclui ainda 300 pontes, algumas com 140 metros de extensão, e três viadutos, que custaram até R$ 80 mil para construir. “A estrutura de benfeitorias da Piratininga é muito impressionante”, disse Elder José de Mello Bruno, da MB Associados, consultoria em agronegócio.

As benfeitorias da fazenda vão muito além de estradas sem buracos ou pontes de concreto usadas para cruzar rios. Na sede administrativa, os funcionários vivem numa vila com casas feitas de alvenaria e disponibilizadas sem custo pela administração. Eles também não pagam por alimentos, como pão e leite. A carne de gado da raça nelore, uma dos melhores do País, é vendida por R$ 8 o quilo – cerca de duas vezes menos do que o preço cobrado em grandes centros, como São Paulo ou Rio de Janeiro. Os filhos dos funcionários são educados numa escola de ensino infantil e fundamental dentro da própria fazenda. Os mais velhos são levados para estudar na cidade por dois ônibus escolares. Tudo de graça. Mais importante: o salário, pago sempre em dinheiro vivo no último sábado do mês, nunca atrasou. “Estou aqui há 17 anos e nunca vi isso acontecer”, afirmou o açougueiro José Mendes de Jesus, que, coberto de sangue, abate 30 vacas por mês para alimentar os funcionários.

Foto: Randes Nunes/Foto Arena

Uma das mais de 300 pontes construídas na fazenda: extravagância para manejar os animais

É quase uma hora da tarde e a professora Vita Maria Saraiva, de 53 anos, acerta os últimos detalhes antes do início das aulas. Sorridente, é uma das mais empolgadas com a vida na fazenda. Funcionária da prefeitura de São Miguel do Araguaia, ela foi transferida há pouco mais de um ano para a Escola Municipal Piratininga. Ela ouviu falar sobre os rumores do leilão por meio dos alunos, mas não quer saber dos detalhes. Vita Maria se empolga mesmo é quando fala sobre a escola. “Nem na cidade tem uma estrutura tão boa quanto aqui”, disse ela. “O Canhedo não deixa faltar nada”. O uniforme dos alunos é usado como exemplo pela professora. O empresário compra dois jogos de camiseta, calça e bermuda para entregar aos alunos todos os anos. A merenda oferecida pelo município é turbinada com carne e leite produzidos na fazenda. E quando a escola faz uma festa para os alunos, como no Dia das Crianças, ele manda fazer bolo e compra adereços para decorar as salas. “Não tenho do que reclamar”, afirmou Vita Maria, que durante a semana vive num dormitório da escola.

Apesar dos benefícios, não é preciso rodar muito para encontrar gente que diz que gostaria de ver o Canhedo longe da Piratininga. As reclamações são variadas: desde as condições de trabalhos rigorosas até o preço cobrado pela carne produzida na fazenda, que mais do que dobrou de alguns meses para cá – acompanhando movimento percebido em outras partes do País. Um motorista, que pediu para não ser identificado com medo de represálias, reclama da rigidez das normas estabelecidas pelo patrão. De acordo com ele, quem sai de folga no sábado à tarde tem até as 18 horas do dia seguinte para retornar. “Quem não fizer isso não pode mais entrar”, afirmou. Outra reclamação repetida por todos os entrevistados pela reportagem do iG tem a ver com os pedidos de folga. Quem precisa tirar um dia para resolver problemas na cidade tem dois dias descontados do salário. A mulher de um funcionário argumenta que os salários estão defasados em relação às outras fazendas da região. “Meu marido ganha pouco mais de R$ 800”, disse, sem revelar o nome. “Tem gente por aí que paga mais de R$ 1 mil”.

Vestido de chapéu, bota de couro e calça rasgada, o uniforme oficial dos peões, o motorista estaciona o caminhão sobre um dos viadutos da fazenda sob um sol de rachar. Há sete anos no serviço, sua função é levar comida para os moradores dos retiros, 26 conjuntos de casas e currais espalhados em meio ao pasto. Sem se identificar, ele conta que os funcionários da fazenda são registrados com um salário mínino na carteira de trabalho e que o restante é pago por fora, em forma de horas extras. A manobra é usada pelas empresas para diminuir os encargos trabalhistas. A informação é confirmada por outros funcionários da fazenda. Mais grave: ele conta que algumas pessoas demitidas têm dificuldade para receber os direitos trabalhistas – um filme já visto antes nas ações movidas contra a Vasp. “Sei de gente que foi retirar o FGTS ou foi usar os benefícios do INSS e não tinha nem um centavo depositado”, afirmou. “O pior é que o velho (Canhedo) tem o santo forte e deve escapar dessa também”.

Avaliada em R$ 615 milhões, essa não é a primeira vez que a Piratininga vai a leilão. Nas outras duas vezes não apareceram compradores. Duas coisas ajudam a explicar a falta de interesse. A primeira é que ainda havia recursos pendentes na Justiça. Ou seja, quem arrematasse as terras não poderia ter a posse definitiva. É o mesmo argumento usado agora por Canhedo. “Só um louco investiria tanto dinheiro numa fazenda com tanta pendência”, disse o empresário. Além disso, circula no mundo dos leilões o boato de que os grupos interessados na fazenda estariam esperando uma redução no lance mínimo pelos 135 mil hectares, estipulado em R$ 430 milhões. “Desta vez, dois grupos mostraram muito interesse no leilão”, disse o leiloeiro Antônio Carlos Seoanes. Um deles visitou a sobrevoou as terras no último final de semana. Como era de se esperar, a presença de interessados não é bem-vinda pelo dono. Para entrar na Piratininga, os visitantes precisaram pedir autorização judicial e foram acompanhados por um oficial de Justiça. Há relatos de que até a Polícia Federal teria acompanhado os possíveis compradores para evitar confusão.

Rotina mantida

Comprada por Canhedo em meados da década de 1970, a Piratininga é a junção dé várias propriedades em uma grande área de pastagem com algumas cabeças de gado. Para transformá-la em fazenda modelo, uma das cinco mais produtivas do País, o empresário investiu pesado em obras de infraestrutura. Em entrevista ao iG, Canhedo não quis revelar o valor do negócio. Mas reportagem da revista Veja publicada há dez anos afirma que ele gastou mais de R$ 400 milhões na fazenda. Metade desse montante foi investida na construção de estradas, pontes e viadutos. O restante foi gasto em terras, animais e maquinários. “Não vendo a Piratininga nem por R$ 1 bilhão”, disse à época. Desde então, mantém uma rotina semanal: Canhedo pousa seu avião Xingu na pista de terra da fazenda por volta das 15 horas da sexta-feira. Logo assume a direção de uma picape F250 prata equipada com um rádio amador e roda as terras para inspecionar o serviço. No dia seguinte, embarca de volta para Brasília, onde vive. Rumores não confirmados indicam que, no auge, a fazenda contava com 500 funcionários, mais de 200 mil cabeças de gado e gerava receita de R$ 10 milhões ao ano.

Foto: Randes Nunes/Foto Arena

Pasto com gado nelore: no auge, a fazenda contava até 200 mil cabeças da raça

A realidade hoje é um pouco diferente. Um galpão de 18 mil metros quadrados que serve como estacionamento e oficina de máquinas está sempre cheio. Sem saber qual será o destino da fazenda, Canhedo pediu que parassem de abrir novas estradas e os tratores e rolos compressores estão parados. Muita gente diz que desde a Piratininga foi penhorada ele parou de investir em benfeitorias. Um exemplo: o empresário queria construir uma pista de pouso asfaltada para receber jatos executivos e aviões de maior porte. Canhedo também estaria interessado em montar um frigorífico na fazenda para vender a carne ali produzida. Ambos os projetos foram engavetados. Além da incerteza com o futuro, alguns acreditam que a falta de novos investimentos é uma estratégia de Canhedo para depreciar o imóvel. “Da portaria até a sede você só vê gado magro”, afirmou um homem que pediu sigilo. “Os bois gordos ficaram escondidos nos pastos no fundo da fazenda”.

O latifúndio de Canhedo contrasta com sua infância desprovida de regalias. O empresário é filho de um espanhol que migrou para o Brasil aos oito anos de idade para trabalhar como caminhoneiro. Nascido em Potirendaba, no norte de São Paulo, ele pegou desde cedo no batente para ajudar em casa. Ainda criança, virou assistente de oficina mecânica no interior paranaense, para onde se mudou com a família. Aprendeu rapidamente o beabá do negócio e, aos 16 anos, montou sua própria oficina. Com dinheiro no bolso e cheio de ambição, propôs um negócio ao pai: comprariam um caminhão em sociedade para fazer entregas na cidade. Deu resultado. O empresário passou a diversificar os investimentos e comprou terrenos, uma serraria e, claro, novos caminhões. Em 1957, Canhedo resolveu levar a frota de oito veículos para tentar a sorte em Brasília, que na época não passava de um grande canteiro de obras.
O trabalho na área de construção civil da capital federal transformaria definitivamente a vida de Canhedo. O primeiro milhão de dólares ele juntou dois anos depois da inauguração de Brasília, em 1960. As oportunidades não paravam de aparecer para o empresário, que criou a companhia de transporte municipal Viação Planalto (Viplan), a Agropecuária Araguaia (que cuida das fazendas do grupo), o hotel Nacional, uma mineradora – entre outras. A grande empresa do conglomerado, no entanto, só foi comprada em 1990, quando o governo de São Paulo privatizou a companhia aérea Vasp. O negócio, fechado por US$ 45 milhões e cercado de indícios de irregularidades, só foi concretizado porque Canhedo ofereceu como garantia a Fazenda Piratininga. No auge, o grupo somava dezessete empresas e mais de 15 mil funcionários. Seu faturamento? Algo em torno de US$ 2,2 bilhões ao ano – 60% proveniente da venda de passagens aéreas e transporte de carga.

Foto: Agência Estado

O empresário Wagner Canhedo: “acho que executar o Canhedo é mais fácil que executar a Vasp”

Atolada em dívidas

A Viação Aérea de São Paulo já foi considerada a segunda maior companhia aérea do Brasil. Modelo de negócio e formadora de profissionais para o setor, a Vasp começou a entrar em parafuso alguns anos depois de privatizada. Atolada em dívidas milionárias com a Infraero, a estatal que administra os aeroportos, Previdência Social e bancos, a empresa perdeu espaço no mercado e parou de pagar salário, hora extra e de recolher o FGTS dos funcionários. Fechou as portas em 2005 e sua falência foi decretada três anos depois. Hoje, existem cerca de 15 mil processos contra a companhia aérea tramitando na Justiça, movidos por 7,5 mil ex-funcionários. O dinheiro da venda do leilão será usado para abater a dívida trabalhista de quase R$ 1 bilhão. “Não sei se a história terá um final feliz, mas acho que dá para pagar parte do que a empresa deve”, disse Vera Salgado, presidente da Associação dos Ex-empregados Trabalhista da Vasp.

Canhedo é conhecido por duas características. A primeira é sua capacidade de não cumprir acordos. Logo após o fechamento da Vasp, concordou em pagar R$ 70 milhões aos funcionários da empresa. Não pagou. A outra é a facilidade com que escapa de questionamentos. Perguntado sobre o tamanho da dívida da Vasp, Canhedo não soube responder. Numa rápida conversa por telefone com a reportagem do iG, limitou-se a dizer que a Justiça deveria usar o patrimônio da companhia aérea para liquidá-la. “Mas acho que executar o Canhedo é mais fácil do que executar a Vasp”, disse ele. Não soube, ou não quis, dizer qual seria o valor atual dos bens da empresa. Cláudio Penna, advogado do empresário, cita outra fonte de receita para acabar com as pendências da Vasp e, assim, salvar a Fazenda Piratininga. “O governo federal é réu de um processo de R$ 8 bilhões movido pelas companhias aéreas por causa do Plano Cruzado, que congelou o preço das passagens enquanto todos os custos da aviação disparavam”, afirmou. “Esse dinheiro seria mais do que suficiente para pagar as dívidas da empresa com os ex-funcionários”.

Enquanto o leilão não acontece, os funcionários da Piratininga tentam manter a rotina. O batente começa cedo, às 7h30, e vai até o por do sol. Em cima de um cavalo e à frente de uma boiada, o peão garante que a indefinição não atrapalha muito o trabalho. “Só um pouquinho”, disse, com um sorriso no canto da boca. Difícil é disfarçar a ansiedade. Todo mundo especula sobre os possíveis compradores, sobre as chances de a fazenda ser arrematada. Tainá Escobar, de 17 anos, foi morar muito nova na Piratininga porque o pai é chefe do setor de tratores. A bordo do ônibus escolar que transporta os alunos para São Miguel do Araguaia, ela conta que está com medo de que todo mundo seja demitido. “Não queria ir embora, gosto de morar aqui”, afirmou. Para convencer os compradores a não fazer isso, a jovem já ensaiou um discurso. “Até os novos funcionários se acostumarem com as funções e conhecerem toda a fazenda leva algum tempo”, disse. “É prejuízo na certa”.

Fonte: http://economia.ig.com.br/fazenda+de+r+615+milhoes+vai+a+leilao+para+pagar+divida+da+vasp/n1237837094890.html

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