Boeing e Airbus hesitam na reformulação dos jatos menores

21/11/2010 –

Boeing e Airbus hesitam na reformulação dos jatos menores

Christopher Drew e Jad Mouawad

Airbus A380 da companhia aérea australiana Qantas é visto após fazer pouso de emergência no aeroporto internacional Changi, em Cingapura; empresa não pensa em reformular modelo

As últimas manobras arriscadas da Boeing e da Airbus não envolvem seus modelos topo de linha, o 787 Dreamliner e jumbo A380, mas em vez disso, seus velhos burros de carga.

As duas companhias são reconhecidas há tempos por sua disposição de assumir riscos. Mas talvez por causa de todos os problemas e custos de seus aviões maiores, as companhias ficaram mais cautelosas ao responder à pressão das companhias aéreas para desenvolver substitutos mais eficientes para seus aviões menores, o 737 e o A320.

Especialistas em aviação dizem que os avanços na tecnologia de motores oferecem uma chance rara para reformular os 737s e A320s das duas companhias, que respondem por três quartos das frotas das grandes companhias aéreas. Mas embora os novos motores possam economizar centenas de milhões de dólares para as companhias aéreas por ano, a Airbus teria que investir US$ 1,5 bilhão a US$ 2 bilhões – e a Boeing provavelmente o dobro deste valor – para testá-los e instalá-los nos jatos.

E isso, dizem as companhias, obrigará ambas a desistirem dos planos de projetar versões novas em folha dos aviões, que eventualmente proporcionarão uma economia ainda maior.

James F. Albaugh, diretor-executivo da Boeing Commercial Airplanes, uma unidade da Boeing, disse numa entrevista que sua companhia deve postergar a troca de motores e, em vez disso, lançar um novo avião em 2020.

Funcionários da Airbus dizem que os altos executivos da companhia estão divididos em relação ao que fazer e planejam decidir em breve. A maioria dos analistas dizem que a Airbus instalará novos motores e melhorará o desenho do A320 até 2015 para assumir as vendas da Boeing enquanto ela trabalha em seus novos modelos.

Mas com o preço do petróleo de volta aos US$ 80 por barril, executivos das companhias aéreas esperavam ter notícias melhores sobre soluções mais rápidas.

Os 737s e A320s, normalmente com 150 a 180 lugares, formaram a espinha dorsal do sistema de viagens aéreas durante décadas. Mais de 10 mil deles carregam passageiros entre grandes aeroportos dos Estados Unidos e outros continentes.

Mas em termos de economia de combustível, “nós não vimos melhorias substanciais desde os anos 90”, diz Michael G. Van de Ven, diretor de operações da Southwest Airlines, um dos maiores clientes da Boeing.

E com o preço das passagens subindo, diz ele, “se existe uma única coisa que se possa fazer para economizar mais no setor, é lançar um novo avião.”

A Boeing e a Airbus dizem que estão sob muita pressão financeira por causa dos atrasos nos aviões maiores para partir diretamente para o projeto de um novo jato, que poderia custar de US$ 7 bilhões a US$ 10 bilhões.

Albaugh, executivo da Boeing, disse que diante da decisão de optar por novos motores daqui a cinco anos ou por um avião completamente daqui a dez anos, a maioria das companhias aéreas preferem esperar.

Embora os motores pudessem ajudar a reduzir os custos operacionais de um novo avião em até 15%, diz ele, as modificações e outros custos para acrescentá-los aos 737s poderiam reduzir a economia total em cerca de 5%.

“Muitas pessoas dirão: ‘sim, pode reformular o avião”, diz Albaugh. “Mas a segunda questão é: você compraria?”

A Airbus pode economizar ainda mais nos custos operacionais totais de um avião – os analistas estimam que de 7% a 10% – usando novos motores e tomando outras medidas para melhorar o desenho do A320.

Mas altos funcionários da Airbus disseram no mês passado que estavam preocupados em não ter engenheiros suficientes para dar conta de todo o trabalho.

A ambivalência das companhias em relação à instalação de novos motores nos aviões já existentes – que é essencialmente uma medida temporária – também ilustra como “o grande jogo Airbus-Boeing está mudando”, diz Richard L. Aboulafia, vice-presidente de análises no Teal Group, uma firma de consultoria sobre a aviação em Fairfax, Virginia.

Embora tenham dominado o mercado de grandes aviões comerciais durante as duas últimas décadas, as duas companhias se contentaram em ultrapassar uma à outra com ousados avanços tecnológicos.

E embora a demanda por novos aviões tenha voltado depois da recessão, ambas as companhias estão financeiramente amarradas por conta da necessidade de resolver seus problemas de produção, diz Aboulafia.

A Boeing está quase três anos atrasada na entrega de seu avião mais importante, o 787 Dreamliner, o primeiro grande jato feito principalmente de partes de carbono leve que também deve reduzir os custos com combustíveis. Um incêndio num voo de teste na semana passada reforçou as expectativas dos analistas de que haverá mais atrasos nas primeiras entregas no ano que vem.

A Airbus disse na semana passada que postergará a data de entrega do A350 XWB, sua resposta ao Dreamliner, de meados de 2013 para o final de 2013. A Airbus terá que fazer mais mudanças em seu jumbo A380 depois que um motor cuspiu fragmentos durante um voo da Qantas Airways em 4 de novembro.

A Boeing e a Airbus também terão que se preocupar com novos concorrentes do Canadá, China e Rússia. Eles estão se aproveitando das novas tecnologias de motores para projetar aviões que podem reduzir as vendas de 737s e A320s nos próximos anos.

Os novos motores estão sendo desenvolvidos pela Pratt & Whitney, uma unidade da United Technologies, e pela CFM International, uma sociedade entre a General Electric e a Snecma da França. A Pratt & Whitney terá um ventilador gigante e um sistema de transmissão avançado que oferecerá mais torque e com menos combustível. O motor rival da CFM terá melhorias para oferecer ganhos similares.

A primeira fabricante de aviões a oferecer o motor Pratt & Whitney será a Bombardier do Canadá, que está projetando jatos que podem carregar de 100 a 130 passageiros. Ela estima que combinando os novos motores com asas com componentes leves, possa cortar os custos operacionais em 15% a partir do níveis atuais.

Companhias chinesas e russas estão projetando aviões para carregar pelo menos 160 pessoas. A Corporação de Aeronaves Comerciais da China anunciou na terça-feira que tinha recebido os primeiros pedidos para seu avião, que usará o motor da CFM.

A Bombardier espera ter seu primeiro jato pronto em 2013, enquanto os empreendimentos chineses e russos estão previstos para 2016.

Mas dados os problemas da Boeing e da Airbus com seus novos aviões, dizem os analistas, essas datas podem facilmente ser postergadas à medida que algumas das novas companhias podem descobrir que construir aviões de qualidade é mais difícil do que imaginavam.

“Não acho que todos os que têm aspirações serão bem sucedidos”, disse Albaugh, executivo da Boeing. “Mas acho que um ou dois podem conseguir.”

A Boeing e a Airbus aumentaram recentemente a produção de seus 737s e A320s, tanto para gerar dinheiro quanto para suprir a demanda como podem.

A Southwest, Ryanair e Delta Air Lines defenderam publicamente um avião replanejado. Mas a menos que exista um consenso por trás dessa opinião, diz Albaugh, a Boeing planeja continuar acrescentando mudanças que podem economizar mais 2% nas operações com o 737.

Funcionários da Airbus dizem que seus executivos de marketing querem ir adiante com o novo motor se for possível resolver os problemas com os recursos para a engenharia. Aboulafia, analista do Teal Group, diz que a Airbus “pode estar perdendo uma oportunidade” se não instalar os novos motores nos A320.

Ele disse que o A320 não é tão eficiente em combustível quanto o 737, e os novos motores podem deixar essa equação favorável para a Airbus. Segundo ele, a Airbus poderia assumir um número significativo das vendas da Boeing antes que o avião de corredor único da Boeing entre no mercado no final da década.

Aboulafia acrescentou que a Airbus também enfrenta uma ameaça um pouco maior a curto prazo por parte das novas empresas que estão entrando no mercado.

Tanto a Bombardier quanto a companhia chinesa estão focadas principalmente nos clientes da Airbus em seus pedidos iniciais.

“Eles têm a faca e o queijo”, diz Aboulafia, referindo-se aos funcionários da Airbus. “E estão simplesmente parados, sem pegar o queijo e sendo cutucados pela faca.”

Tradução: Eloise De Vylder

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