Mesmo sem caixa-preta, destroços e corpos ajudarão a contar a história do voo AF-447

04/04/2011 – 20h23

Mesmo sem caixa-preta, destroços e corpos ajudarão a contar a história do voo AF-447

Arthur Guimarães
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Perito criminal com 30 anos de carreira e mais de 50 cadáveres submersos no currículo, Renato Pattoli argumenta que a análise dos recém-encontrados restos mortais dos passageiros do voo AF 447 pode, sim, contribuir para esclarecer pontos do acidente e, provavelmente, levará à identificação dos corpos – mesmo após 23 meses da queda do avião da Air France no oceano Atlântico.

Segundo o especialista, que atua desvendando crimes pelo Instituto de Criminalística de São Paulo, as condições são teoricamente boas para a conservação dos tecidos e ossos. Como explica o especialista, falando sempre “em tese”, a falta de oxigênio do ambiente aquático, somada à pouca luminosidade e à baixa temperatura das águas, faz com que a decomposição dos corpos seja retardada.

“A decomposição anaeróbia (sem oxigênio) é mais lenta. E fica ainda mais demorada sem luz e em água fria. Também não parece que houve contaminação, como por produto químico. O avião entrou na água, desceu e ficou lá, em condição única, pelo que especula-se. Existe, sim, chance de encontrar materiais que possam ser examinados e que ajudem nas investigações, mesmo com todo esse tempo passado”, afirma Patolli. O avião, que seguia do Rio de Janeiro para Paris, desapareceu na noite de 31 de maio de 2009 com 228 pessoas a bordo.

O especialista conta que, inicialmente, os dois elementos mais importantes para fazer o diagnóstico do que aconteceu são os bulbos capilares e os ossos. A raiz do cabelo, diz ele, guarda informações do DNA por tempo quase indefinido – “até das múmias” – e os ossos podem servir para estudar a causa da morte dos passageiros.

“Dependendo de como está o osso, podemos descobrir se houve uma pancada forte, uma perfuração, os dois, ou uma explosão. Sem dúvida, se os ossos estiverem em condições mínimas de conservação, será possível trazer novos elementos para a apuração que tenta esclarecer o episódio”, afirma. “De toda forma, se houve alguma explosão muito forte, que tenha deixado os corpos expostos a altíssimas temperaturas, todo o trabalho pode ser prejudicado. Cada caso é um caso.”

Há outras variáveis na tarefa, no entanto. Como explica o perito criminal, há animais necrófagos no oceano, como o camarão, que podem ter se alimentado dos restos mortais, dependendo da profundidade exata em que estão os destroços encontrados domingo (3). “Se sobrou algum tecido, a análise fica ainda mais rica. Mas isso depende muito de que tipo de bicho está em volta e tem acesso ao ambiente em que estão os corpos”, argumenta.

Caixa-preta é importante, mas não é tudo

Em resposta a questionamentos do UOL Notícias, a Airbus, fabricante do avião que caiu em 2009, confirmou que há esperança que, além dos corpos e dos destroços encontrados, sejam ainda recuperadas as chamadas caixas-pretas da aeronave, dispositivos que podem ter guardado informações importantes do funcionamento do Airbus antes do acidente.

Segundo Liana Sucar-Hamel, gerente de Comunicação da América Latina & Caribe da Airbus, as caixas-pretas são ferramentas “essenciais” para a compreensão do episódio. Segundo ela, no entanto, não é possível garantir que elas terão capacidade de serem lidas, depois de terem passado tanto tempo submersas. “Não há nenhuma resposta absoluta para estas questões (capacidade de leitura). Como elas dependem do caso e condições, no entanto, continuamos a ser muito otimistas que a descoberta produzirá resultados legíveis dos gravadores”, afirmou.

De toda forma, como explica Respicio Antônio do Espirito Santo Junior, professor de Transporte Aéreo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), somente o fato de terem sido encontradas novas partes da fuselagem já merece ser comemorado. Segundo ele, analisando marcas nas peças é possível determinar – ou se obter indícios – de qual foi a dinâmica da queda.

“Dependendo do estado de conservação da fuselagem, dá para tentar esclarecer se aeronave explodiu, se pegou fogo. Também dá para ter uma noção dos pontos específicos que foram rompidos. Se ela foi desmembrada aqui ou ali, de cima para baixo ou de baixo para cima”, exemplifica, sempre adotando o tom teórico – e não específico desse caso. “Pelo o que se sabe até agora, o avião teria entrado de barriga na água. Essas peças comprovam isso?”

O especialista se diz esperançoso para que a cabine dos pilotos seja encontrada. Segundo ele, é possível que muitos dos painéis, medidores e ponteiros ainda estejam no ponto em que estavam no momento do acidente. “A caixa-preta é importante, mas o resto também. Há outras formas de se entender um acidente aéreo”, afirma ele, que encara esse tipo de investigação determinante para a redução de tragédias do tipo.

“Qualquer avanço como o de domingo (quando os novos destroços foram encontrados) é sempre bem-vindo. Quanto mais se sabe de um acidente, maiores são as formas de elaborar formas de prevenção.”

Jean-Paul Troadec, diretor do Escritório de Investigação e Análises da França (BEA, na sigla em francês), apresenta fotos do acidente com o voo 447 da Air France durante coletiva de imprensa em Le Bourget (França), nesta segunda-feira (4). Segundo o governo francês, corpos de passageiros que estavam no avião, que caiu sobre o Atlântico há quase dois anos, foram encontrados dentro de fuselagem achada no mar no domingo (3). O voo 447, que fazia o trajeto Rio-Paris, desapareceu dos radares em 31 de maio de 2009 com 228 pessoas a bordo


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