Gastos com passagens criam novo rombo

Valor Econômico
Gastos com passagens criam novo rombo
Cautela da TAM e da Gol e câmbio ajudam as aéreas estrangeiras

Daniel Rittner | De Brasília
08/08/2011

A cautela da TAM e da Gol em acelerar a expansão de seus voos ao exterior, o real sobrevalorizado e a corrida por viagens internacionais provocam um novo rombo nas contas externas. Os gastos dos brasileiros em passagens de companhias aéreas estrangeiras crescem em escala geométrica, gerando um déficit que vai além da já problemática conta-turismo.

Entre 2003 e 2010, esses gastos subiram de US$ 613 milhões para US$ 2,9 bilhões, segundo o Banco Central. De janeiro a junho, aumentaram 33% na comparação com igual período de 2010. Na direção oposta, as despesas dos estrangeiros com passagens vendidas por aéreas brasileiras ficam abaixo de US$ 300 milhões – praticamente estagnadas desde 2005.

O aumento do desequilíbrio reflete o avanço das empresas americanas e europeias no mercado brasileiro de aviação, o que mais cresce no mundo. Companhias asiáticas como Emirates, Turkish, Catar e China Airlines iniciaram operações no Brasil de quatro anos para cá. Nos voos de e para a Europa, a quebra da Varig e a incapacidade da TAM em acompanhar plenamente o aumento da demanda com novas frequências fizeram disparar a participação de mercado das aéreas estrangeiras.

Segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), a Varig e a TAM tinham 43% do fluxo de passageiros entre Brasil e Europa, em 2003. Em 2010, a fatia da TAM ­ única brasileira que continua voando à Europa ­ caiu para 23%.

“O mercado tem respondido muito satisfatoriamente. É impressionante. Você coloca um novo voo e ele lota”, diz Robson Bertolossi, presidente da Jurcaib, entidade que congrega 40 companhias estrangeiras no Brasil.

As políticas de liberdade tarifária e de céus abertos adotadas recentemente pela Anac, com Estados Unidos e União Europeia, devem ampliar ainda mais as fatias das aéreas estrangeiras no mercado brasileiro de voos internacionais, segundo o Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias (Snea), que reúne as brasileiras.

No acumulado dos últimos 12 meses até junho, o déficit em passagens internacionais chegou a US$ 3,041 bilhões. “Eu imagino que a tendência é aumentar”, diz Márcio Mollo, presidente do Snea, atribuindo o fenômeno à valorização do real e ao aumento da renda. “A classe média está feliz da vida, mas é uma irresponsabilidade [do governo]”, diz ele.

Mollo diz que os custos no Brasil são maiores do que na Europa ou nos EUA, o que reduz a competitividade das aéreas nacionais em rotas nas quais há concorrência direta com as estrangeiras. Segundo a Iata (associação mundial de companhias aéreas), as despesas médias com combustível representam 23% dos custos operacionais. “No Brasil, essa proporção aumenta para 35%. No exterior, o estoque de peças mantido pelas empresas é de 4% do valor médio de cada aeronave. Aqui, por causa da vagarosidade da Receita Federal na liberação das peças, chega a 20%.”

Conforme o anuário estatístico da Anac, que compila dados econômicos e financeiros das empresas brasileiras, as operações internacionais geraram um prejuízo de R$ 267 milhões somente em 2010. As companhias contestam os números obtidos pela metodologia da agência.

De qualquer forma, os voos internacionais “são um negócio arriscado” e “o Brasil é um país com custos muito elevados”, diz André Castellini, especialista em aviação da Bain & Co. Para ele, as aéreas estrangeiras têm mais facilidade do que as brasileiras, pelo tamanho de suas frotas, para ajustar as malhas. “Para uma europeia, fica mais fácil deslocar duas aeronaves que não estão sendo bem aproveitadas em outras rotas para reforçar operações no mercado brasileiro, que está aquecido.”

Castellini elogia a rápida ocupação de espaço pela TAM das rotas internacionais abandonadas pela Varig, que quebrou em 2006. Em 2007, ao comprar a “parte boa” da Varig, a Gol tentou operar algumas ligações a capitais europeias. Mas a estratégia durou menos de um ano, e a companhia da família Constantino não tem planos de retomar voos regulares fora da América do Sul e do Caribe, pelo menos no curto prazo.

Nos meses seguintes à quebra da Varig, a TAM inaugurou rotas para Londres, Frankfurt, Milão, Madri, Orlando, Caracas, Lima e Bogotá. E reforçou suas frequências para Nova York, Miami e Paris ­ além de destinos regionais como Buenos Aires, Santiago e Montevidéu. Hoje, tem 598 voos semanais ao exterior. Depois que a Varig deixou de voar para Tóquio, no entanto, nenhuma brasileira voltou a operar na Ásia.

“A TAM tem declarado aos investidores que privilegia aumentar o tamanho de seus aviões ou a frequência de seus voos, em vez da abertura de novos mercados”, diz Castellini. Mas isso talvez mude com a criação da Latam, se ela for aprovada pelos órgãos de defesa da concorrência. “A fusão LAN-TAM pode viabilizar uma nova expansão internacional.”

Recommended Posts

Start typing and press Enter to search