As comissárias e o 11 de Setembro

Jornal do Brasil
Jet Lag

As comissárias e o 11 de Setembro
06/09/2011 – 15:20
Enviado por: marceloambrosio

Costumo acompanhar o que o pessoal de bordo escreve na internet, é uma maneira de saber como pensam os que vivem profissionalmente a 35 mil pés fora das cabines de controle. Uma comissária americana, dona de um blog, escreveu um artigo para a CNN hoje no qual fala o que mudou na mentalidade dos seus colegas de trabalho desde o dia em que quatro tripulações completas viraram reféns e depois cordeiros de sacrifício em nome da Jihad patrocinada por Osama Bin Laden.

Heather Pole tem uma visão, para mim, até nova em relação ao assunto. Para começar, não fala da sua atividade com uma atitude policialesca, como vários outros comissários americanos – e tive oportunidade de presenciar isso na prática – passaram a ostentar. Isso porque uma das reações aos atentados nos EUA foi dinamitar o conceito de justiça ao estender o papel de xerife de bordo aos comissários dentro do famigerado Patriot Act.

Por essa regulamentação, qualquer distúrbio a bordo poderia ser interpretado pela tripulação, munida de autoridade policial, como atentado à segurança de vôo, consequentemente uma ameaça à segurança nacional. Isso valia aos incautos passageiros, a maioria bêbados ou intoxicados pela combinação de remédios para dormir com álcool e a altitude, três meses em isolamento em uma cadeia de Bangkor, no Maine – boa parte dos casos era jogada lá por ser um local muito isolado – e um julgamento severo e kafkiano.

Contei aqui da passageira, presa e sentenciada, que teve os dois filhos pequenos entregues para adoção depois de discutir com a comissária que a advertiu por ter dado uma palmada em um deles. Ela ficou presa em uma cadeia da costa oeste, enquanto os dois meninos, depois de enviados para uma casa correcional em Honolulu, Havaí, foram dados pela Justiça a outra família. Tudo isso ocorreu porque as crianças tomaram uma dura da mãe ao derrubarem o copo de bebida que ela tinha. A comissária interferiu e ouviu um “não se meta”. Poderosa, liquidou a ameaça à hierarquia de bordo e a família de uma vez.

Heather Pole fala que, desde os ataques, passou a se concentrar nas decolagens em algo que poderia usar para evitar que terroristas a subjugassem. Garrafas de vinho pequenas quebradas, café quente atirado na cara, assentos usados como escudo, tudo isso fazia parte do plano B contra a Al Qaeda – um medo, aliás, justificável se considerarmos que o comando liderado por Mohamed Atta há dez anos tomou quatro aviões com o uso de singelas facas Olfa. Deu certo porque parte do treino dos terroristas, em bases no Afeganistão, consistia em degolar ovelhas usando o mesmo acessório.

A comissária relata a ocasião em que notou um passageiro que ia e vinha algumas vezes ao banheiro com um saco do McDonald´s nas mãos. Ela reportou a suspeita e, no pouso, o sujeito foi preso. Não se sabe se ia fazer algo ou não, mas havia comprado apenas a passagem de ida, em dinheiro, e havia se matriculado em um curso de pilotagem na Flórida – tal qual Atta e seus comandados fizeram. Pole destaca isso como uma espécie de perda de inocência e conta ainda que, no treinamento, em vez de aprenderem como servir bem, os comissários agora recebem lições de caratê. Suspeita razoável é a palavra-chave.

Se formos observar esse mesmo efeito fora dos EUA, a distensão foi maior nesses dez anos. Há cuidado com a segurança, mas ela é menos paranóica e obsessiva do que a que enfrentamos em deslocamentos para os EUA. Recentemente, ao seguir para Miami, tive o passaporte checado cinco vezes antes do embarque: antes do check in, no próprio check in, na Polícia Federal, no acesso ao finger e dentro do finger, antes do avião – nesse caso por pessoal de segurança independente tanto da companhia quanto do aeroporto. Em junho, ao seguir para Londres, foram só três checagens e olhe lá. Não é desleixo, apenas precaução na medida.

Os atentados atingiram fundo a aviação americana, embora dados recentes da Iata apontem mais um ano de crescimento, em torno de 7%, desse mercado. A comissária afirma, no entanto, que a rentabilidade melhorou às custas de uma piora nas condições de trabalho, com mais sobrecarga e menos descanso. Para os passageiros, o serviço piorou.

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