Comida de avião será sempre ruim

O Globo
Quinta-feira, 15 de março de 2012 

Comida de avião será sempre ruim
Companhias aéreas não são as únicas culpadas; estudo revela que paladar é alterado em altitude
Lilian Fernandes
lilian@oglobo.com.br

Quase todo mundo concorda: comida de avião é muito ruim. Mas as companhias aéreas não são as únicas culpadas por isso — a biologia está contra elas. Segundo uma reportagem do “New York Times”, um dos motivos para que tenhamos a impressão de que ninguém se preocupou em tentar cativar o paladar dos passageiros é que não conseguimos sentir plenamente o gosto da comida quando estamos em grande altitude.

O problema é que o olfato, um importante coadjuvante nesta história, e o paladar ficam tão prejudicados nas alturas que é difícil distinguir o que é doce, salgado, amargo ou azedo. Mesmo antes de a aeronave decolar, a atmosfera dentro da cabine resseca o nariz. E, enquanto o avião sobe, a mudança na pressão atmosférica entorpece cerca de um terço de nossas mais de dez mil papilas gustativas. Assim que se atinge a altitude de aproximadamente 12 mil metros, os níveis de umidade da cabine são mantidos baixos para proteger a fuselagem de corrosão. Em pouco tempo, o nariz e as papilas gustativas estão ainda mais entorpecidos.

Tudo isso explica por que sucos de tomate são mais palatáveis em aviões: o fruto parece menos ácido no ar do que em terra firme — como descobriu a companhia alemã Lufthansa depois de encomendar uma pesquisa científica para saber a razão de seus clientes consumirem tanto suco de tomate quanto cerveja. Ajuda a entender, também, por que as companhias tendem a salgar e a apimentar muito a comida, além de servir vinhos muito encorpados. Sem esses extras, a refeição pareceria (ainda mais) sem graça.

Não só os passageiros de avião sofrem com este problema: os astronautas também padecem, provavelmente por razões biológicas semelhantes. Depois que o gestor do sistema de alimentação da Nasa começou a pedir enormes quantidades de molho picante, o órgão começou a suspeitar de que o inchaço dos seios da face que ocorre em gravidade zero pudesse estar interferindo na capacidade dos astronautas de sentir cheiros e gostos. Agora, estão em curso estudos que reproduzem, com voluntários, este efeito na Terra.

Para quem costuma viajar de avião, a notícia, diz o “New York Times”, é que as companhias aéreas estão investindo no aprimoramento de suas refeições, que (também é consenso) pioraram sensivelmente nos últimos anos.

Pelo menos para os passageiros da executiva e da primeira classe a situação deve melhorar. A americana Delta Airlines, por exemplo, contratou o conceituado chef Michael Chiarello. E a Korean Air tem uma fazenda de onde vêm suas carnes e seus vegetais orgânicos. No Brasil, a TAM renova periodicamente o cardápio de seus voos internacionais: o mais recente leva a assinatura da chef Bel Coelho. Espera-se que estes esforços sejam recompensados.

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