Europa tenta unificar sistema de tráfego aéreo

Portal iG

Prazo para países apresentarem mudanças é em 4 de dezembro; perdas anuais em rotas mal planejadas chega a 5 bilhões de euros, mas países temem perda de soberania
The New York Times – Nicola Clark
26/10/2012 04:27:07

Bruxelas – Já se passaram dois anos desde que uma nuvem de fuligem vinda de um vulcão islandês paralisou os céus europeus e trouxe mais apoio à unificação da gestão do sistema de tráfego aéreo da Europa.

Entretanto, o embalo político perdeu força e a reforma foi deixada de lado, embora a colcha de retalhos que compõe o tráfego aéreo europeu seja tão ineficiente que, até mesmo em dias de sol, aviões e passageiros perdem tempo e dinheiro com um número limitado de voos, muitos atrasos e rotas ilógicas e sinuosas.

Gael Turine/The International Herald Tribune

Quartel general do Eurocontrol, agência responsável por coordenar o tráfego aéreo em 39
jurisdições da Europe, em Bruxelas: mais de uma década para resolver o problema

O objetivo de longo prazo é remodelar completamente o sistema que, com mais de 50 anos, está fragmentado entre os 27 membros da União Europeia e os outros 12 países vizinhos.

“Ainda estamos longe de criar um espaço aéreo unificado para toda a Europa”, afirmou o comissário de transportes da União Europeia, Siim Kallas, nos comentários que enviou à conferência realizada pelos órgãos de gestão do tráfego aéreo e por executivos de companhias aéreas. “Há alguns sinais de mudança, mas o progresso tem sido lento e limitado demais. Precisamos pensar a respeito de outras soluções e colocá-las em prática rapidamente.”

Rapidamente, nesse caso, significa 4 de dezembro, o prazo que Kallas planeja estipular. Ao final desse período, todos os membros da União Europeia terão de realizar acordos para fundir os diversos espaços aéreos em nove “blocos funcionais de espaço aéreo”. No começo do ano que vem, os países serão obrigados a demonstrar um progresso claro na redução de custos com os sistemas de controle, além de aumentar a intensidade de tráfego.

As melhorias já chegam tarde, segundo David McMillan, diretor geral da Eurocontrol, a agência em Bruxelas responsável por coordenar o fluxo do tráfego aéreo nas atuais 39 jurisdições. “Esse é um enorme projeto de gestão de mudanças”, afirmou, “e não haverá uma liderança única capaz de conduzi-lo”.

A União Europeia busca há mais de uma década unificar a desvairada colcha de retalhos composta pelos sistemas de tráfego aéreo de cada país. O objetivo é reduzir ou eliminar as diferenças de procedimento que, segundo as autoridades, respondem por cerca de 5 bilhões de euros em gastos desnecessários a cada ano – sem mencionar os milhões de toneladas de combustível e das emissões de carbono gastas com rotas ineficientes.

Este ano seria crucial para a criação de um plano mestre, conhecido como “Céu Único Europeu”.

A lei aprovada pelo parlamento europeu em 2009, por exemplo, vislumbrava a criação de nove blocos de espaço aéreo, cada um dos quais adotando procedimentos operacionais, tecnologias e estruturas de taxas unificadas – um primeiro passo em direção ao alinhamento total em 2020.

A lei exigia que, no começo deste ano, os membros da união europeia cumprissem uma série de metas de melhoria de desempenho anuais, com o objetivo de diminuir os gastos com controle de tráfego, reduzir os atrasos e o impacto ambiental do setor.

Contudo, o plano enfrentou resistência de governos europeus preocupados com a possibilidade de abrir mão da soberania do espaço aéreo nacional e da autoridade de suas agências de gestão de tráfego aéreo, que frequentemente são um braço dos ministérios do transporte de cada país.

Foram assinados diversos acordos entre blocos de espaços aéreos, mas foram feitos poucos esforços no sentido de colocá-los em prática. Contudo, em uma dinâmica parecida com a forma pela qual a União Europeia lidou com as dívidas públicas de seus membros, Bruxelas não teve poder o bastante para compelir os países a cumprir seus compromissos.

Kallas deseja pressioná-los com um discurso na conferência do Céu Único Europeu, no Chipre.

O comissário descreveu a nova lei que a Comissão Europeia – o braço executivo da UE – planeja criar no início do ano que vem para acelerar o processo de reforma.

A lei exigiria que os países de cada um dos nove blocos de espaços aéreos desenvolvam planos de operação coletivos e avaliem o progresso por meio de metas de eficiência. Além disso, a lei também irá dar mais poderes ao Eurocontrol, que faz a gestão da grade aérea, dando mais autoridade ao órgão para planejar rotas aéreas e criar um espaço aéreo pan-europeu.

Muitos membros do setor aéreo estão frustrados com o rápido desaparecimento do sentimento de urgência surgido após o caos causado pela nuvem de cinzas vulcânicas em 2010 – quando a reação desarticulada do continente levou a uma crise que durou quase uma semana, deixando milhões de viajantes sem conseguir voltar para casa.

“Quando a nuvem de cinzas cobriu os céus , ficou claro para todo mundo quais seriam os benefícios de um sistema europeu unificado”, afirmou Hemant Mistry, diretor de encargos setoriais da Associação Internacional de Transporte Aéreo. “Contudo, na hora de tomar medidas práticas, muitas pessoas e órgãos assumem uma posição defensiva.”

A associação afirmou que o custo do sistema de tráfego aéreo fragmentado da Europa chegou a quase 18 milhões de minutos de atraso em solo no ano de 2011 – cerca de dois minutos por voo –, ou seja, quase um bilhão de euros de gastos desnecessários causados por rotas aéreas mal planejadas. Segundo a associação, essas ineficiências também foram culpadas por mais de 7,3 milhões de toneladas de emissões de carbono excessivas – e que começaram a ser taxadas pela União Europeia este ano.

De acordo com autoridades europeias, boa parte desses custos foi transferida para os passageiros por meio de passagens mais caras. O controle de tráfego aéreo, conforme demonstram as estimativas, representa até 12% de uma passagem só de volta dentro da União Europeia.

A comissão afirma que parte da culpa se deve aos custos excessivos de muitas agências nacionais de controle de tráfego, que assumem tarefas – como monitoramento climático e treinamento de pessoal – que poderiam ser terceirizadas para fornecedores especializados.

Entretanto, as agências de tráfego aéreo afirmam que as metas de economia – inicialmente estabelecidas em uma média de 3,5% ao ano até 2014 – não levam em conta o alto nível de custos fixos que fazem parte de suas operações. Os custos incluem infraestruturas grandes e complexas, além de custos trabalhistas e previdenciários que são frequentemente negociados com os sindicatos e chegam a quase 50 por cento do orçamento das empresas.

“O desafio é aprender a fazer isso em um ambiente profundamente complexo”, afirmou Richard Deakin, chefe executivo da NATS, a agência de tráfego aéreo da Inglaterra. “No final das contas, não temos controle sobre boa parte de nossos custos.”

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