Reformas em aeroportos têm dois anos para deslanchar

O Globo

Terminais sofrem com aumento do fluxo de passageiros acima da capacidade, pistas de pouso aquém da necessidade e falta de investimentos
DANIELLE NOGUEIRA
HENRIQUE GOMES BATISTA
DO GLOBO
Publicado:
11/11/12 – 23h00
Atualizado:
11/11/12 – 23h40
 


Consórcio que assumiu o Aeroporto de Guarulhos promete novo edifício-garagem
MICHEL FILHO / AGÊNCIA O GLOBO

RIO — Nos últimos cinco anos, o movimento de passageiros nos aeroportos brasileiros saltou 63%, para 180 milhões de pessoas em 2011. Resultado do aumento da renda média, do crédito farto e da maior concorrência entre as empresas aéreas. No mesmo período, a média de execução dos investimentos da Infraero ficou em 48%, segundo levantamento da ONG Contas Abertas. Esse descompasso tornou os aeroportos um dos principais gargalos da infraestrutura do país. Filas no check-in e engarrafamento nas pistas se tornaram rotina.

A Infraero afirma que a dificuldade de execução dos investimentos se deve a problemas jurídicos e de licenciamento ambiental. Mas, diante da perspectiva de novos aumentos no fluxo de passageiros — estudo da Coppe/UFRJ prevê crescimento de 55% entre 2010 e 2014, para 239,5 milhões — e da proximidade da Copa e das Olimpíadas, a estatal concederá mais terminais à iniciativa privada, para agilizar as obras. E está acertando os últimos detalhes do modelo para Galeão (RJ) e Confins (MG), que deve constar do pacote para o setor aéreo que o governo divulgará este mês. Guarulhos (SP), Viracopos (Campinas-SP) e Brasília foram licitados em fevereiro. No total, a Infraero administrava 66 terminais.

Há três opções: concessão a investidores privados, em que a Infraero seria minoritária com 49% da sociedade (como no leilão de fevereiro); parceria público-privada com um grande operador internacional, com a Infraero majoritária; e transferência de gestão. A preferência da presidente Dilma Rousseff era pelo segundo modelo, mas o desinteresse dos grandes operadores deve levar o governo a optar pelo primeiro.

— Seria mais prudente manter as regras do leilão de fevereiro, com pequenos ajustes. Não há por que ficar testando novos modelos — diz o consultor José Wilson Massa, ex-assessor da Superintendência da Infraero no Galeão.

Aeroportos: radiografia do setor

Uma das mudanças deve ser a exigência de experiência em aeroportos com movimento igual ou superior a 30 milhões de passageiros por ano. No leilão de fevereiro, o piso era de cinco milhões, o que atraiu operadores de médio porte.

Os consórcios que acabam de assumir Guarulhos, Viracopos e Brasília rebatem as críticas com promessas de investimento. Juntos, investirão R$ 5,8 bilhões até 2014. A Infraero planeja R$ 8,3 bilhões para todos os seus aeroportos no mesmo período.

Um dos principais gargalos é a capacidade dos terminais. Segundo o estudo da Coppe/UFRJ, Guarulhos tem a situação mais crítica. Em 2010, foram 26,7 milhões de passageiros para uma capacidade de 24,9 milhões. Em 2014, a previsão é de 37,7 milhões de passageiros para uma capacidade de 40 milhões.

Em Brasília, a capacidade em 2010 era de 14 milhões de passageiros. Os embarques e desembarques atingiram 14,1 milhões. Para 2014, esperam-se 20 milhões de pessoas. No Galeão, a situação é mais confortável: em dois anos, espera-se uma demanda de 21,4 milhões de passageiros por ano, metade da capacidade projetada (44 milhões).
— As promessas da Infraero e das empresas são que as obras virão a tempo para os eventos esportivos. A privatização pura e simples não é sinônimo de melhoria, é uma decisão política. Vamos esperar e ver — afirma Elton Fernandes, da Coppe/UFRJ, que fez o estudo a pedido do Sindicato Nacional das Empresas Aéreas (Snea).

Viracopos terá R$ 9,5 bi em 30 anos

A concessionária Aeroporto Internacional de Guarulhos prevê investir R$ 3 bilhões até 2014, com um novo edifício-garagem de 2.400 vagas e um novo terminal de passageiros, elevando a capacidade do aeroporto para 40 milhões. Para os 30 anos de concessão, serão R$ 6 bilhões em investimentos.

Há preocupação também com o deslocamento no aeroporto. O presidente da concessionária, Antonio Miguel Marques, promete um monotrilho para interligar os terminais, ao custo de US$ 40 milhões, que ficaria pronto em 2016.
Outro gargalo são as pistas de pouso, seja pelo tamanho aquém do necessário ou pelo fato de a maioria dos terminais ter apenas uma. Caso de Viracopos, onde um acidente com um cargueiro interditou o local por 46 horas em outubro. Outra pista, só em 2017, por causa do licenciamento ambiental.

— Enquanto isso, estamos investindo R$ 50 milhões na revitalização de uma pista auxiliar e da pista de taxiamento. Se elas estivessem funcionando como deveriam, Viracopos não precisaria ter sido fechado — diz João Santana, presidente do Conselho de Administração da Aeroportos do Brasil, que assume o controle de Viracopos esta semana.

O consórcio ainda prevê investir R$ 2 bilhões até 2014, com um novo terminal de passageiros, que ampliará sua capacidade total para 14 milhões, acima da demanda projetada (11,7 milhões). Em 30 anos de concessão, serão R$ 9,5 bilhões em investimentos.

Já a Inframérica, que ganhou o leilão de Brasília, planeja investir R$ 2,85 bilhões em 25 anos, sendo R$ 750 milhões até 2014. Inicialmente, as pontes de acesso aos aviões passarão de 13 para 28, os dois terminais de passageiros serão ampliados e um terceiro, construído. O consórcio garante que os investimentos serão suficientes para atender à demanda prevista para 2014, de 20 milhões de passageiros por ano. Hoje, a capacidade é de 15,4 milhões.

A situação é pior nos pequenos e médios terminais. Segundo empresários do setor, mais de duas dezenas desses aeroportos poderiam ser lucrativas e concedidas à iniciativa privada. Apostole Lazaro Chryssafidis, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Transporte Aéreo Regional (Abetar), diz que o setor poderia ser 30% maior se problemas simples fossem resolvidos. Ele lembra que algumas regras no Brasil são mais rígidas que nos EUA, porque um pequeno terminal precisa de estrutura igual à dos grandes:

— Cidades com dois ou três voos por dia precisam de uma estrutura própria de combate a incêndios e ambulâncias exclusivas, que custam R$ 600 mil. Não podem usar a estrutura da cidade.

Chryssafidis afirma que, com poucas alterações burocráticas e investimentos — um estudo apontou serem necessários R$ 2,5 bilhões para 180 aeroportos regionais prioritários —, os preços seriam mais competitivos, e o volume de passageiros aumentaria em 30%.

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