Ameaças aéreas

Folha de São Paulo
23/11/2012 – 03h30

Ameaças aéreas
Ruy Castro

RIO DE JANEIRO – Já contei como, há tempos, na ponte aérea, fui reprovado no detector de metais do Santos-Dumont por estar levando no bolso um minúsculo trim –aparelho indispensável para que homens destros, pouco afeitos a manicures, consigam cortar as unhas da mão direita. Ao ver o instrumento, o homem da Anac não vacilou: fez-me despejá-lo numa urna destinada justamente a isto –impedir que passageiros embarquem portando aparelhos perfurocortantes, com os quais podem subjugar o comandante e desviar o voo para Varre-Sai ou Itaquaquecetuba.

Desde então, ninguém me pega desprevenido. Se tiver de levar em viagem um maçarico, um ancinho ou uma serra elétrica, despachá-lo-ei no balcão, junto com a mala. Jamais o levarei na mão, para não ter o desgosto de vê-lo apreendido para sempre, como fizeram com o trim.

Na semana passada, no Galeão, indo a Recife para a Fliporto, observei quando alguns passageiros estavam tendo de se desfazer de suas potenciais armas. Então, pela primeira vez, fui espiar pela frente de vidro da urna abarrotada os objetos dos quais muitas pessoas já tinham sido obrigadas a se separar.

Numa piscadela, observei estiletes, canivetes, facas de cozinha, facões de churrasco, punhais, tesouras, chaves de fenda, espátulas para abrir livros, alicates e soco inglês. Até aí, tudo bem. Mas havia também brocas, pregos, parafusos, lixas (metálicas) de calcanhar, pinças de sobrancelha, saca-rolhas, removedores de cutícula, abridores de garrafa, raladores de queijo, batedores de claras e até um estetoscópio.

O que mais me surpreendeu, no entanto, foram os garfos e colheres apreendidos. Entendo que alguns tenham seus talheres de estimação, quem sabe vindos da infância, e que não comam sem eles. Mas até a comida do avião? Não há hipótese. Talvez aqueles garfos fossem mesmo armas.

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