GOL desafia o Governo ao promover demissão coletiva

Jornal de Turismo

Publicado em Terça, 18 Dezembro 2012 11:52
Por Claudio Magnavita *
 

Quem acompanhou o noticiário nos últimos dias, especialmente a postura da GOL, que sozinha responde por quase metade do tráfego aéreo doméstico, é de se imaginar que a empresa resolveu desafiar o Governo.

Ao acumular prejuízos seguidos, na maioria por erro de gestão e por ter abandonado o seu modelo original, a GOL está realizando um voo kamikaze em direção ao Palácio do Planalto, sem levar em conta a imensa capacidade de reação da presidenta Dilma.

Acuada com a recente movimentação do setor, que levou à criação da Latam (o que deu musculatura internacional à sua principal concorrente) e à fusão da Trip com a Azul, além do crescimento sustentável da Avianca, que pode ganhar força com a aquisição pela casa matriz da Tap, os gestores da GOL rasgaram todos os manuais de boa conduta que regula o relacionamento entre o concessionário e o poder concedente.

Ao decretar o fim da WebJet e demitir sumariamente 850 funcionários da empresa, a GOL leva os especialistas a duas conclusões: ou a empresa está fazendo tudo isso porque já está vendida e os atuais gestores preparam a sua retirada, ou o desespero que bateu nela é aquele típico de quem está acuado em um jogo de vida ou morte e não tem mais nada a perder.

Os erros cometidos pela GOL e que resultaram na saída de cena do seu presidente fundador Constantino Junior, são primários. Refletem uma cisão entre os irmãos acionistas que não se conformavam até hoje com a compra da Varig e os erros cometidos na desastrosa operação internacional.

O pior é que as regras aplicadas agora na WebJet se revestem do mesmo pacote de maldade e esperteza, só que ampliados e desafiando perigosamente o Governo Federal.

Se no caso Varig, o desgaste político da busca por uma solução para a empresa e o tráfego de influência que se estabeleceu com a presença do advogado Roberto Teixeira e seu livre trânsito no Planalto, serviram para acobertar os erros cometidos pelos novos donos da Varig, agora a situação é outra. Não há conversas subterrâneas para esconder e nem uma overdose de problemas que estavam associados ao caso Varig.

Se o que ocorreu agora com a WebJet tivesse acontecido nos Estados Unidos, todos os envolvidos, a empresa que comprou, o Cade e a própria Anac, estariam na cadeia.

Tudo exala a sinais de abuso do poder econômico para promover uma maior alta de tarifas e lesar os milhões de usuários do sistema aéreo que estão sentindo no bolso a disparada dos preços das passagens.

Diferente da compra da moribunda Varig, a WebJet funcionava como o fiel da balança de um mercado cada vez mais na mão de poucos.

Para entender o tamanho da gravidade da decisão de acabar com a WebJet, é preciso compreender o papel regulamentador que a empresa passou a ter no mercado aéreo brasileiro. O seu fim abriu a caixa de pandora dos preços altos que passam a ser irreversíveis se não houver por parte do Governo a capacidade de reagir.

A WebJet não era uma pequena empresa aérea adquirida por uma concorrente. Era a única a implantar o verdadeiro espírito de baixo custo e baixas tarifas que fazem o sucesso no mundo com a Ryanair e EasyJet. Aliás, foi no modelo da empresa irlandesa que a WebJet resolveu crescer e implantou as primeiras tarifas aéreas realmente baratas nos últimos 5 anos. A empresa assumiu esse modelo no momento que as classes emergentes entravam no mercado consumidor. Viajar deixou de ser algo privativo das elites, aliás um cenário que nos últimos dias voltou com força.

Com aeronaves que tinham assentos que não reclinavam, sem serviço de bordo gratuito, com tripulantes simpáticos e com um time operacional de primeira, a WebJet criou o seu mercado. O próprio Governo Federal, ao adotar a política de menor preço para as viagens de serviço, passou a ser um dos grandes clientes da WebJet. É só o Governo quantificar quanto pagava e quanto paga hoje pelas viagens de seus funcionários.

Quem voava WebJet sabia o que estava comprando e aceitava entrar em aviões antigos e apertados. Estavam felizes. Viajar de ônibus seria muito pior do que algumas horas de aperto e barulho.

Nada disso foi levado em conta pelo Cade, que fez ouvido de mercado nas características especiais da companhia.

Quem se der ao trabalho de ler o parecer do Cade, vai ficar arrepiado com a miopia dos argumentos dos votos. Não foi exigido nenhuma garantia de continuidade da empresa, a não ser o de um punhado de slots no Santos Dumont.

A WebJet incomodava tanto que a GOL (algumas vezes em companhia com a TAM) cercava os voos mais procurados da empresa, colocando frequências próximas e praticando preços semelhantes e até menores, só para fazer a companhia sangrar.

Quando foi vendida, possuía um prejuízo acumulado de R$ 200 milhões, facilmente absorvido com a abertura de capital.

Este papel de fiel da balança, que hoje também cabe à Avianca e à Azul, não é percebido pelo poder concedente. Estas empresas enfrentam dificuldades para operar em Congonhas. Falar em livre concorrência é fantasioso. Se um padeiro aumenta os preços, a concorrência pode surgir no outro lado da rua. Na aviação é diferente. Os aeroportos que já estão com sua capacidade no limite, não permitem o crescimento de quem pode equilibrar o mercado.

Ao lançar o edital do Trem Bala, o Governo estabeleceu um teto tarifário. Por que não fazer o mesmo na aviação e definir a tarifa Y, como é chamada a tarifa econômica cheia? Desta forma, evitaria os abusos cometidos recentemente, onde trechos domésticos são vendidos a valores absurdos e custam mais do que uma passagem ao exterior com um percurso oito vezes maior.

As companhias aéreas estão se defendendo apresentando um estudo que hoje é falho. Mostram o desempenho tarifário de um período que não existe mais. Apresentam dados da época completamente diferente ao balé que as empresas fizeram nos últimos meses. Eles entraram em um alinhamento perigoso e chegaram a criar uma associação, a Abear (Associação Brasileira das Empresas Aéreas), que livre das amarras e limites legais sindicais, estabeleceram uma ação conjunta. Por coincidência, depois de sentarem todos em uma mesma mesa e representados pela nova entidade, surge o movimento de redução de oferta das duas maiores e os preços disparam imediatamente.

Esta coreografia sincronizada e que resultou na disparada irracional de preços, pode receber interpretações bem assustadoras. Só o alinhamento da TAM e da GOL faz acender todas as luzes de alerta.

O caso da GOL é o mais apavorante para o mercado. A empresa é a algoz pela segunda vez do fim de uma empresa. Quando a unidade operacional da Varig foi vendida, o plano aprovado pelos credores levou à criação de uma nova empresa, que funcionaria inicialmente como fretadora e poderia crescer. Foi criada a Flex, que no plano aprovado teria até quatro aeronaves 737-300 e um 767-200. Ao comprar a VRG, a GOL resolveu desidratar a nova empresa. Manteve um único avião voando o
mínimo em uma rota entre Rio de Janeiro e Manaus e não deu musculatura para que a companhia crescesse. Adiou de forma quase indefinida o encontro de contas que capitalizaria a Flex, refente a créditos da antiga Varig, que pagou despesas que já seriam da VRG. No momento que em instância superior foi decidido que a GOL não seria mais sucessora do passivo trabalhista da velha Varig, a Flex recebeu o golpe mortal. Os credores que aprovaram o plano de recuperação e esperavam que a Flex gerasse caixa, foram enganados. A Flex teve a sua falência decretada e parou de voar.

Com a WebJet o sentimento inicial é que seria diferente. Muitas coisas da empresa foram absorvidas pela GOL. Houve até investimento no treinamento de pilotos para os novos 737-800 incorporados à frota.

Tudo levava a crer na incorporação gradual da empresa e de sua cultura pela GOL, o que não se esperava foi a forma abrupta do seu encerramento. O objetivo final ficou claro: receber os slots e varrer os baixos preços do mercado.

O poder concedente tem que agir de forma imediata e estabelecer um equilíbrio no mercado. A Azul e a Avianca estão prontas para estabelecer o seu papel de trazer equilíbrio ao mercado. É preciso dar um tratamento diferenciado a essas empresas e a outras que queiram entrar para estabelecer um cenário de concorrência saudável e preços competitivos. O fim abrupto da WebJet é o maior desafio que um concessionário de um serviço público realiza contra o poder concedente. O Governo precisa agir para não ficar desmoralizado.

O impacto no mercado doméstico é enorme, exatamente por não haver concorrência. O mesmo não ocorre no internacional, porque a presença de dezenas de empresas estrangeiras faz que as regras de mercado não sejam manipuladas.

Além dos passageiros – existem 30 mil que voariam WebJet em janeiro e ainda não foram acomodados – outras vítimas são os funcionários. Acreditaram que os empregos estavam garantidos, principalmente depois que o governo desonerou a folha de pagamento e viram que a resposta da empresa foi uma demissão coletiva sem precedentes na história da aviação comercial do país.

Para resolver a questão trabalhista, uma ideia que ganha corpo é que o Governo congele os slots da WebJet e que os distribua às empresas concorrentes que absorverem todo o quadro de demitidos, com estabilidade mínima de cinco anos.

A fórmula de sucesso do DNA inicial da Gol, com uma equipe de gestores fundadores, todos de primeira linha e que também foram afastados de forma irracional – decisão que começou a levar a empresa a entrar em parafuso gerencial – faz parte do passado. O que prevalece agora é o velho DNA das confusões relacionadas à expansão das empresas de ônibus da família Constantino. Esse DNA migrou para a aviação. Toda a imagem que havia sido purificada com o sucesso inicial da GOL foi jogada no lixo. O que está prevalecendo agora é o estilo truculento que por vez ou outra tem levado os acionistas a frequentarem as páginas policias. O clima dentro da empresa está péssimo.

A ameaça de novas demissões com a redução da oferta e voos apavoram o corpo funcional da própria GOL. As pessoas estão perdendo os elos que foram construídos na fase dourada da empresa. Acabar com a WebJet e demitir mais de mil funcionários de uma só vez demonstra que os dirigentes da GOL estão se colocando acima da lei e esqueceram que são concessionários de um serviço público. Além de irracional, é um ato de soberba que não pode ser aceito passivamente pela sociedade. Transferir a culpa de má gestão para o custo Brasil e chantagear o Governo para conseguir novas reduções tributárias é esticar a corda ao limite máximo.

* Claudio Magnavita é presidente do Jornal de Turismo e conselheiro titular do Conselho Consultivo da ANAC

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