Plano para aviação regional prevê aeroportos 'grudados'

Folha de São Paulo
SEGUNDA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2012

No interior de SC, distância entre dois aeródromos será de apenas 33 km
Governo vai investir R$ 7,3 bilhões em 270 aeroportos; há 20 casos de terminais separados por menos de 100 km

MARIANA BARBOSA
DE SÃO PAULO

Dos 270 aeroportos contemplados no plano de investimentos do governo federal para a aviação regional, há pelo menos 20 casos em que a distância entre dois deles é inferior a cem quilômetros. Em seis casos, essa distância é inferior a 60 quilômetros.

A maior proximidade é entre Lages e Correia Pinto, na Serra Catarinense: 33 quilômetros. Cacoal e Pimenta Bueno, em Rondônia, também receberão investimentos em aeroportos e estão separadas por 41,4 quilômetros.

“Não faz sentido investir em aeroportos muito próximos”, afirma Lucas Arruda, sócio-diretor da Lunica Consultoria em Aviação. “As companhias aéreas fazem previsão de capacidade com base na captura da demanda das cidades localizadas em um raio de cem quilômetros.”

Cem quilômetros -ou uma hora de automóvel- é uma referência internacional para estabelecer a distância ideal entre dois aeroportos no mercado doméstico. No caso de voos internacionais de longo curso, a distância sobe para 300 quilômetros.

Outros critérios entram na conta, como tamanho da população, presença de indústrias e atratividade turística.

“A distância entre Guarulhos e Congonhas é de 40 quilômetros, mas o tamanho da economia e da população é incomparável”, diz Arruda. Lages, por exemplo, sede de fábricas da Ambev e da Klabin, tem 156,7 mil habitantes. Correia Pinto, 14,8 mil. Cacoal e Pimenta Bueno, juntas, têm 112,3 mil habitantes.

Para Arruda, alguns desses aeroportos localizados em áreas muito próximas devem, sim, ser contemplados com investimento público em infraestrutura aeroportuária, mas de outra natureza.

“Você pode equipar o aeroporto muito pequeno para receber voos da aviação geral [jatos particulares, táxi aéreo etc.], mas não precisa equipá-lo com terminal de passageiros e toda a estrutura para receber voos regulares.”

“O que abunda não prejudica. Há demanda para os dois”, defende Paulo Marques, chefe de gabinete do prefeito Renato Nunes de Oliveira, cujo mandato se encerra hoje. “O governador, quando vem para Lages, pousa aqui. E Correia Pinto também vai priorizar a carga.”

O aeroporto de Lages acaba de ser reformado pelo governo estadual. A partir de janeiro, começará a receber um voo regular da Brava Linhas Aéreas (ex-NHT). Não se sabe o que vai acontecer com o voo, ou com o próprio aeroporto, quando Correia Pinto, que terá uma pista maior e mais densa, for inaugurado.

A meta é que 96% da população esteja a no máximo cem quilômetros de um aeroporto. Para isso, além de investir R$ 7,3 bilhões em 270 aeroportos, o governo vai custear parte da ocupação de voos. Quanto mais desconcentrada a rede aeroportuária, maior será a necessidade de subsídios para manter voos nesses aeroportos.

ESPANHA

A Espanha enfrenta esse problema e o governo discute a possibilidade de fechar aeroportos. O país ampliou a rede durante o boom imobiliário, e hoje falta passageiro.

De 52 aeroportos, mais de 20 estão a menos de uma hora de estrada de outro. Com 504 mil quilômetros quadrados, a Espanha é um pouco menor do que a região Sul (576 mil quilômetros quadrados), que terá 45 aeródromos. Mas a economia espanhola é seis vezes maior que o Sul.

FRASES

“Não faz sentido investir em aeroportos muito próximos”
LUCAS ARRUDA
sócio-diretor da Lunica Consultoria em Aviação

“O que abunda não prejudica”
PAULO MARQUES
chefe de gabinete do prefeito de Lages (SC), que está a 33 quilômetros de Correia Pinto

Governo afirma que projetos podem ser viáveis
DE SÃO PAULO

A SAC (Secretaria de Aviação Civil) diz acreditar que “pode, sim, haver aeroportos em distâncias inferiores a cem quilômetros que se mostrem viáveis”.

Em nota, a SAC dá como exemplo os aeroportos de Juiz de Fora e Goianá (MG), que estão a 40 quilômetros um do outro e recebem voos regulares.

A SAC diz ainda que o plano tomou como exemplo os EUA. Lá, segundo a secretaria, 63% dos residentes estão a uma distância de 32 quilômetros de uma infraestrutura aeroportuária. E 95% dos aeroportos estão a uma distância radial inferior a 60 quilômetros entre eles.

A conta dos EUA inclui aeroportos usados pela aviação executiva, não só regionais, como é o caso dos 270 aeroportos do plano do governo brasileiro. (MB)

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