Não é surpreendente ver esses problemas no 787 Dreamliner

O Globo
Domingo 20.1.2013 

FERNANDA GODOY
Correspondente em Nova York
fgodoy@oglobo.com.br

Entrevista
Para especialista e professor da Universidade da Carolina do Norte, nos EUA, problemas do 787 já afetaram imagem da Boeing e das aéreas donas da aeronave
John Kasarda

DIVULGAÇÃO
Decepção. Kasarda: má publicidade

Não é uma surpresa que tantos problemas surjam agora com o Boeing 787 Dreamliner?
Eles não deveriam ter sido detectados nos testes? É preciso entender que o 787 Dreamliner é uma aeronave totalmente nova, não apenas com novos materiais, mas novos sistemas elétricos, extremamente complexos. Não é surpreendente ver esses problemas surgirem, mas é decepcionante, e estou certo de que os executivos da Boeing estão infelizes ao ver essa série de problemas. A questão das baterias é complicada, mas em um caso é um para- brisas partido; em outro, uma falha interna; em outro, vazamento de combustível, fogo. O pior caso foi um incêndio em um voo de teste no Texas, quando eles ainda estavam tentando obter o certificado para a aeronave. É um avião complexo. Por isso a FAA (Federal Aviation Administration, órgão que regula o setor aéreo americano) decidiu reter esses aviões no solo.

O que está acontecendo já foi suficiente para desgastar a imagem da Boeing?
Com certeza. É embaraçoso para eles, houve atrasos no lançamento, e esses episódios recentes certamente causaram transtornos aos executivos da Boeing. É má publicidade.

Para as companhias aéreas também, não?
As empresas que compraram esses aviões vêm fazendo propaganda pesada deles, e é constrangedor para elas também. A Boeing inaugurou uma linha de fornecimento de peças nova, com alto percentual de componentes vindos de fora. Parece que alguns desses fornecedores podem ter desapontado a Boeing em termos de controle de qualidade. ●

‘A aeronave atende aos requisitos do século XXI’
Para especialista, os problemas do Dreamliner são ‘soluço’

Os problemas no Dreamliner reforçam os argumentos dos defensores de uma abordagem mais convencional na linha de montagem?
Sim, com um percentual maior de produção interna dos componentes. Mas foi uma abordagem revolucionária no gerenciamento global do suprimento de peças que fez tudo mais complexo. Ela colocou um risco maior para os fornecedores, mas no fim das contas o risco se voltou contra a Boeing. Isso causa dano à marca e é custoso, porque há várias multas envolvidas quando há problemas com uma aeronave.

E há também as perdas com o cancelamento de encomendas, não?
Sim, mas acho que isso vai ser um soluço, um tropeço. Um soluço importante, mas um soluço. No fim das contas, é uma aeronave que atende aos requisitos do século XXI, sendo mais leve e mais eficiente no consumo de combustível. Ela servirá ao mercado mais eficazmente que os jumbos e os pequenos aviões que não podem viajar rotas longas. Mas houve alguns tropeços e a Boeing está pagando o preço. Infelizmente, algumas aéreas também estão sofrendo os custos de ter esses aviões retidos no solo.

O senhor viajou no Dreamliner recentemente, na rota Tóquio-San Diego. Como foi a experiência?
É um avião muito bom. Eles conseguiram moderar a pressão interna na cabine, a iluminação é mais confortável, a circulação do ar é melhor, mas as janelas não são tão maiores do que as convencionais. Em geral, achei o avião confortável, mas não tão espetacular quanto a publicidade anuncia.

Quais são seus critérios para escolher um voo? A segurança da aeronave é um deles?
Conveniência é importante. Não gosto de conexões longas, a primeira prioridade é chegar o mais rapidamente possível ao meu destino. A aviação é tão segura que não levo a segurança em consideração como um dos fatores mais importantes. Mas acho que a FAA adotou a abordagem better safe than sorry (melhor seguro que arrependido).

Quanto aos problemas com o vazamento da baterias de íon-lítio, eles não eram conhecidos desde seu uso em celulares e outros aparelhos eletrônicos?
Acho que esse é o foco agora, mas houve outros problemas. Isso é importante devido à complexidade do sistema elétrico.

O senhor estima em quanto tempo o 787 será liberado?
Não, depende do que a investigação da FAA revelar. (F.G.) ●

 

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