A revolução tech das aeronaves sem piloto

O Globo
Segunda-feira 28.1.2013Veículos Aéreos Não Tripulados ganham uso civil em setores como petróleo, energia e agricultura
RENNAN SETTI
rennan.setti@oglobo.com.br

Assim como a internet comercial resultou de pesquisas conduzidas por uma agência militar americana a partir dos anos 1960, já extrapola as trincheiras da Defesa a revolução das aeronaves que voam sem piloto e executam sozinhas missões programadas. Diversas empresas do Brasil e do mundo adotaram recentemente, ainda que de forma experimental, a tecnologia dos Veículos Aéreos Não Tripulados (Vants), que foi uma das protagonistas da Guerra do Afeganistão. Enxergam na solução uma oportunidade de baixar custos e automatizar tarefas como a inspeção de obras, a previsão do clima, a vigilância de áreas de proteção ambiental e a avaliação das lavouras. Mas, enquanto tentam firmar voo, os Vants civis penetram um ar turbulento onde falta regulamentação, há risco de acidentes e sobram questões de ética e privacidade.

Os Vants lembram aeromodelos, mas não foram criados para recreação, e sim para missões que só podiam ser executadas por helicópteros e aviões. Além disso, transportam um rol de sensores e câmeras e podem voar sem a intervenção humana, obedecendo a um percurso previamente determinado. Vêm ainda em uma profusão de formatos e tamanhos: uns parecem aviões tradicionais, outros são helicópteros de quatro hélices.

O segmento é o que mais cresce na indústria aeroespacial, segundo estimativa do Teal Group. As vendas globais já somam US$ 6,6 bilhões ao ano e devem atingir US$ 11,4 bilhões por ano em 2022. Grande parte disso vem do uso militar, mas a autoridade aeroviária dos EUA prevê que, em 2017, 10 mil Vants civis estarão voando no país, mesmo com o uso da tecnologia sendo investigado pela ONU, por morte de civis no combate ao terrorismo.

Apesar de ainda não haver regulação nesse mercado, grandes empresas já encaram a tecnologia com seriedade. O fundador da FedEx, Fred Smith, já disse que os Vants devem transportar as cargas que entrega no futuro. Redes de TV e estúdios de cinema nos EUA já discutem usar Vants para captar imagens. Além disso, emerge entre os americanos um movimento de Vants amadores que custam até US$ 500.

PETROBRAS USA O RECURSO
No Brasil, a Petrobras utilizou um Vant em 2011. Durante o primeiro semestre daquele ano, um modelo criado em parceria com a empresa Space Airships monitorou as obras de construção dos gasodutos Gasan II e Gaspal, nas cidades paulistas de Guararema, Mauá e Ribeirão Pires. Tratou-se de um dirigível remotamente pilotado, com 21,3 metros de comprimento e autonomia de voo de quatro horas.

A cem metros de altura, o dirigível sobrevoava 120 quilômetros de obras carregando câmera fotográfica de 12 megapixels, filmadora 3D e sensores infravermelhos. Cumpriu essa rotina levantando voo duas vezes por semana durante seis meses.

— O Vant é muito útil no monitoramento de obras lineares, que se estendem por longas distâncias. Montar uma sala para visualizar os dados coletados pelo Vant sai mais barato do que pôr toda a equipe em helicópteros, cuja hora de serviço custa milhares de reais — contou Paulo Montes, gerente de engenharia e tecnologia para construção e montagem da Petrobras.

Todo o investimento no projeto somou R$ 2,7 milhões, calculou Montes.

Paralelamente, o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento (Cenpes) da Petrobras estuda se o uso de Vants vale a pena. Em agosto, decolou pela primeira vez seu mini-Vant, modelo com menos de 3kg remotamente controlado, autonomia de 40 minutos e capacidade de transmitir vídeo em tempo real. Chamado de SAMA, ele teve sua estreia sobre a área militar do Campo de Gericinó, na Zona Oeste do Rio.

— O objetivo é saber se o uso de Vants é prático e vantajoso financeiramente, mas nada temos de conclusivo. — disse o pesquisador Heitor Araújo, acrescentando que a Petrobras pode testar Vants no futuro em missões de monitoramento de manchas de óleo no mar.

Já a Cemig experimenta um Vant na inspeção de linhas de transmissão. Desde o ano passado, a aeronave já fez mais de cem horas de voo em busca de problemas nas linhas que passam por áreas distantes da região metropolitana de Belo Horizonte. As câmeras ficam atentas ao que Alexandre Bueno, superintendente de tecnologia da companhia, chama de interferências mais grosseiras em sua rede: vegetação crescendo fora de controle, construção de barracos em áreas de risco, furto de componentes etc.

As fotografias feitas pela nave sofrem um processo de “colagem”, resultando em imensas fotografias digitais — uma delas chegou a medir 60 quilômetros — que são analisadas pelos técnicos.

De acordo com Bueno, helicópteros custam R$ 10 mil por hora, valor que supera em mais de 20 vezes a manutenção do Vant. A Cemig já investiu R$ 10 milhões na tecnologia e planeja fabricar mais cinco aviões.

Os aviões não tripulados têm sido aclamados como uma solução barata e prática nas lavouras. O agronegócio utiliza fotos aéreas para identificar pragas e avaliar a saúde das safras, mas as imagens de satélite só são possíveis em dias livres de nuvens, e o custo de um avião comum é muito elevado. A AGX, empresa especializada em agricultura de precisão, diz já ter vendido mais de cem unidades dos Vants que fabrica. Os clientes são latifundiários, dispostos a pagar de R$ 60 mil — o preço mais em conta pela pequena nave Tiriba — a R$ 800 mil, o mais caro já pago pelo modelo com conjunto óptico completo.

Embora sua empresa tenha foco na área rural, Adriano Kancelkis, diretorexecutivo da AGX, enxerga um potencial maior. Ele acredita, por exemplo, que aviões de passageiros não precisarão mais ter pilotos daqui a uma década.

— O Vant é para a aviação o que o MP3 foi para a indústria da música. ●

“Os veículos aéreos não tripulados (Vants) representam para a aviação o mesmo que o formato de arquivo MP3 representou para a indústria da música”
Adriano Kancelkis
Diretor da empresa AGX

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