Céu de brigadeiro para formar piloto

Estado de Minas

Crescimento da frota offshore e salário valorizado atraem profissionais para operar helicóptero, triplicando licenças
Marinella Castro –
Atualização: 04/02/2013 07:39

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O céu está azul e o tempo firme para os pilotos de helicóptero. Apesar de cara, a formação para operar a máquina tem atraído candidatos de todo o Brasil, interessados em salários valorizados e nas chances que crescem no mercado de trabalho, empurradas pelo avanço do número de helicópteros voando e mais ainda pelo que se pode chamar de nova fronteira da profissão: as plataformas de óleo e gás. A busca das empresas desse setor por profissionais do ar tem provocado uma corrida aos cursos de formação.

Números da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) mostram uma explosão da concessão de licenças para voar – elas mais que triplicaram nos últimos cinco anos, passando de 369 habilitações para 1.462. Para ter ideia, em 2007, 170 habilitações foram expedidas para piloto privado. No ano passado, forma 807 licenças, segundo relatório da Anac.
Para os especialistas, a demanda do mercado de trabalho justifica o crescimento no percentual de habilitações. As plataformas de petróleo devem demandar por ano cerca de 80 pilotos nos próximos 10 anos, com salário inicial variando entre R$ 9 mil e R$ 10 mil, podendo rapidamente chegar a R$ 15 mil. O número que desafia a capacidade brasileira de formação.

Na corrida para atender a demanda, empresas de aviação também passaram a promover a qualificação de pilotos para atender às empresas petrolíferas, mas se haverá pilotos disponíveis essa é ainda uma incógnita. Enquanto um piloto comercial precisa investir cerca de R$ 100 mil para atingir 100 horas de voo, o chamado piloto offshore se habilita a partir de 500 horas e investimentos que superam os R$ 200 mil. “A formação deveria ter o incentivo do governo, como já ocorre em outras áreas, onde o país precisa da qualificação”, defende Guilherme Medina, diretor de Recursos Humanos da Líder Aviação, maior empresa no segmento executivo da América Latina.

A Líder, que tem 67 helicópteros em sua frota, opera voos off- shore, isto é, da costa para plataformas de petróleo, de empresas como Petrobras, Shell, Chevron e Statoil. Para atender à demanda, a empresa desenvolveu em parceria com a americana Bristow Academy curso para formação de pilotos, que acontece nos Estados Unidos com duração de 12 meses. Os candidatos devem investir com recursos próprios US$ 100 mil (cerca de R$ 200 mil). Concluído o curso, passam por um processo seletivo e podem ser contratados pela empresa. “Para operar as plataformas é preciso atingir requisitos de qualidade”, reforça Medina.

DISPUTA Com o aquecimento da demanda, o segmento, que sempre foi bem mais tímido que o mercado de piloto de aviões, entrou na disputa pelos profissionais. Piloto de avião, Jonathan Barro migrou para o setor de helicópteros há três anos, impulsionado pela boa oferta do segmento. Quando decidiu concluir a sua formação, que ocorreu há pouco mais de 10 anos, ele deixou BH para se formar no Rio de Janeiro, onde estavam as escolas especializadas. Hoje, a capital conta com três escolas de formação prática, duas delas abertas nos últimos três anos.

Com 5,5 mil horas acumuladas de voo, Jonathan ocupa hoje o posto que é uma espécie de sonho para muitos pilotos iniciantes na profissão. Como piloto offshore ele opera um helicóptero no valor de US$ 27 milhões. “É uma carreira sofisticada e bonita. Requer muito treinamento, mas tem também uma escala atrativa.” Trabalhando por 15 dias e folgando outros 15, ele transporta 21 pessoas , avançando 270 quilômetros mar adentro. “É um desafio.”

BH supera Brasil

O mercado de helicópteros tem crescido a uma média de 20% ao ano, mas em Belo Horizonte o avanço supera a média nacional, atingindo 30% ao ano. A frota do país dobrou na última década. Minas é o terceiro colocado no ranking, atrás de São Paulo e Rio de Janeiro, com frota de 220 aeronaves – há 10 anos eram 106. Somente em BH, são 56 helicópteros. “Há cinco anos, eram 10”, comenta Theo Rohlfs, diretor em Minas da Associação Brasileira de Pilotos de Helicópteros (Abraphe).

Roberto Belmiro formou-se como piloto há 10 anos, mas foi há pouco mais de cinco anos que a carreira esquentou e ganhou grande fôlego. Ele trabalha como instrutor na Escola de Pilotagem e Centro de Treinamento Efae, em Contagem, na Grande BH. Ao mesmo tempo que vê as turmas crescerem, Belmiro investe na formação. “Faço graduação para voar com instrumentos.”

Coordenador do cursos de ciências aeronáuticas da Universidade Fumec, Deusdedit Carlos Reis aponta que, depois de 10 anos com turmas à noite, a escola abre este ano horário pela manhã. Ele concorda que o helicóptero passou a ganhar destaque no mercado de trabalho, mas o custo da formação prática ainda é uma barreira a ser vencida. “Enquanto a hora de voo para avião varia entre R$ 260 e R$ 350, para o helicóptero custa entre R$ 800 e R$ 900 em média”, compara.

Hernane Assis coordena a formação teórica para pilotos no Aeroclube do Estado de Minas Gerais, escola que funciona no Aeroporto Carlos Prates, com a parte teórica da formação. Segundo ele, há 10 anos a procura não passava de um candidato ao ano interessado em se dedicar ao setor, mas nos últimos três anos a demanda cresceu para 35 alunos ao ano. “O mercado é promissor.” (MC)

Palavra de especialista

Theo Rohlfs, diretor em Minas da Abraphe

Nada de importar mão de obra

O mercado brasileiro para pilotos de helicópteros está em franca expansão com todas as escolas lotadas até 2014. O setor vem trabalhando pela qualidade e segurança operacional e é contrário à ideia de importar mão de obra para suprir a demanda interna. Essa é uma atitude que poderia desequilibrar gravemente o mercado, impedindo o país de crescer e de se tornar autossuficiente. A formação de pilotos ganhou grande fôlego e está havendo grande investimento na formação. Acreditamos que haverá mão de obra habilitada para responder à demanda das empresas do segmento de petróleo e gás, assim como para atender o crescimento da frota particular e comercial.

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