Saída de Mollo do Snea encerra importante ciclo na história do Sindicato

Jornal de Turismo

Publicado em Quinta, 21 Março 2013 17:20
por Cláudio Magnavita

Encerrou na primeira semana de março o mandato de José Marcio Mollo como presidente do Sindicato Nacional das Empresa Aéreoviárias, o Snea. Ele sai de cena de forma discreta, atitude que sempre marcou a sua atuação, não tendo sido mordido pela mosca azul da vaidade e pela busca dos holofotes.

É necessario registrar a importância que Mollo teve para a aviação comercial nestes últimos seis anos. Primeiro ele assumiu a presidência do Snea sucedendo Marco Antônio Bologna, que como presidente da TAM e do Sindicato acabou sendo penalizado pelos problemas enfrentados por um ano negro da aviação.

Ao defender o setor e colocar o seu rosto na vitrine, Bologna acabou sendo alvo de retaliação pelas falhas do poder concendente e principalmente dos problemas dos controladores, que colapsou a aviação comercial por meses.

A TAM foi injustamente penalizada naquele momento e o seu presidente virou o para-raios de toda a crise. Ficou claro que a cadeira de presidente do Snea não deveria ser ocupada por um dirigente ligado a uma empresa aérea, que é concessionária de um serviço público, sob o risco de receber a retaliação na sua pessoa jurídica.

É importante lembrar que neste momento estávamos vivendo um processo de reorganização do setor aéreo, com a transição da Anac, a crise da Varig e mudanças no Ministério da Defesa. O cenário era de caos, agravado por dois grandes acidentes aéreos, o da Tam e o da GOL.

Foi neste palco conturbado que Mollo foi convocado. Como respeitado advogado e especialista em concessões, ele aceitou o desafio, que deveria ser transitório e acabou ficando por seis anos.

Como jurista e zelando pelo respeito que sempre gozou no meio jurídico, a sua primeira ação foi se prender ao estrito cumprimento da lei. Não cometeu e nem aceitou, enquanto presidente do Snea, que o Sindicato saísse do trilho da legalidade. Nos debates com o poder concedente, principalmente nas questões relacionadas com a regulamentação do setor, estabeleceu um diálogo de altíssimo nível, que separava o confronto legal com o pessoal. Nunca misturou as estações. Ganhou desta forma o profundo respeito dos adversários momentâneos. O debate se deu sempre no entendimento legal.

Com incrível poder de síntese, vozeirão de locutor de rádio e profundo conhecimento jurídico, Mollo foi um personagem importante nos inúmeros debates no Legislativo, sempre aprimorando as regras que estavam sendo criadas e principalmente sendo consultado pelos legisladores, com os seus pareceres isentos sendo aceitos com total respeito.

Para uma atividade extremamente regulada, José Marcio Mollo foi o dirigente certo, na hora certa e que demonstrou, com a reconstrução da imagem do Sindicato Nacional das Empresas Aéreoviárias que é possivel defender um setor sem se afastar da legalidade, nem promover boicotes a terceiros e sem estabelecer acordos subterrâneos.

Entre os grandes embates, o então presidente do Snea abraçou a questão da liberação tarifária internacional, que levou a Anac a recuar e implantar, de forma progressiva, depois de vários embates judiciais.

Fundado em 1933, o Snea é uma das mais antigas entidades sindicais patronais do país. Do seu quadro de fundadores não existe mais nenhuma das empresas nacionais. O mundo da aviação mudou muito, principalmente nestes últimos seis anos. E a última direção do Sindicato soube compreender este momento.

Vale destacar também o quanto o Sindicato foi ajudado pela fleuma jurídica de Mollo, que aprendeu a viver no dia a dia com o contraditório. Aliás, uma virtude de democratas que sabem que o bom debate só engradece e não tacha de tolices aquilo que lhe toca o calo. Com estes predicados, ele conquistou o respeito dos trabalhadores. Por diversas vezes, conseguiu unir patrões e empregados em uma agenda comum contra o poder concedente.

Os problemas relacionados à infraestrutura sempre mereceram duras críticas e, como especialista, foi ouvido com respeito pela mídia. Deve se destacar também, além da lealdade de caráter, uma outra caracterista dele: a extrema franqueza. Em muitas reuniões com os dirigentes das empresas aéreas, Mollo sempre disse o que precisava ser dito e não o que eles queriam ouvir. Agiu sempre como um advogado, que mesmo contrariando interesses imediatos, demonstrou que a médio e longo prazo estava certo e que as suas duras posições funcionaram como advocacia preventiva. Para um setor regulado e que depende do poder concedente, isso vale ouro.

O Snea acumulou nestes últimos seis anos um capital moral, que construiu uma credibilidade junto a formadores de opinião, imprensa, governo e passageiros. Nos últimos meses, no Conselho da Anac, Mollo conseguiu o impossivel. Alinhar uma agenda entre os representantes dos usuários e as companhias aéreas. Novamente o objetivo era combater o vilão: a falta de infraestrutura do país, que prejudica tanto os passageiros como as empresas. A sua imensa capacidade de diálogo e a credibilidade das suas palavras facilitaram a construção destas pontes.

Além de conselheiro da Anac, Mollo foi também conselheiro do Conselho Nacional de Turismo, ambiente onde a sua credibilidade ajudou a estabelecer uma ponte entre a cadeia produtiva com o Snea. Nas atas do Conselho estão registradas participações memoráveis, onde teve como suplente o também respeitado advogado Flávio Shering Ribeiro.

Finalmente, o SNEA estabeleceu com a imprensa uma relação de absoluto respeito. O trabalho desenvolvido pela estrutura de comunicação do sindicato, pilotada pelo veterano Jorge Honorio e Sylvio Machado, criou uma das mais procuradas ferramentas de informação aeronáutica, o famoso Clipping do Snea, distribuído a milhares de pessoas ligadas ao setor, com o mais completo relato de tudo que saiu na imprensa, em duas edições diárias. Isso mesmo: tudo, já que nunca houve espaço para censura ou manipulação das informações contidas. O que era público, democraticamente ganhava as páginas de uma das edições do clipping, por isso a sua credibilidade e a inteligência de não tentar tapar o sol com a peneira.

Ainda na imprensa, vale ressaltar a credibilidade dos estudos estatísticos e setoriais distribuídos pelo Sindicato, muitas vezes pautando as manchetes dos cadernos de economia e dos telejornais.

Este período de ouro do Snea, um dos mais importantes nos seus 80 anos de história, chega ao fim com a saída de José Marcio Mollo e de sua equipe. Como legado, ficam os seus ensinamentos e seus exemplos. Um trabalho que merece o reconhecimento público e muitos aplausos. Este ciclo de seis anos não poderia se encerrar sem que ao menos tivesse um registro, como o que deixamos aqui.

Cláudio Magnavita é conselheiro da Anac e conselheiro do Conselho Nacional de Turismo

Recommended Posts

Start typing and press Enter to search