‘Estamos avaliando parcerias com empresas europeias’, diz Kakinoff, presidente da Gol

Estado de S.Paulo
QUARTA-FEIRA, 15 DE MAIO DE 20

Presidente da Gol afirma que empresa estuda vender ações para outras companhias aéreas, como fez com a Delta
Marina Gazzoni

MÁRCIO FERNANDES/ESTADÃO
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Balanço. Na presidência da Gol desde junho de 2012, Kakinoff disse estar satisfeito com
resultados apesar do prejuízo

ENTREVISTA
Paulo Kakinoff, presidente da Gol

A Gol divulgou ontem um prejuízo líquido de R$ 75 milhões no primeiro trimestre do ano. Mas o presidente da empresa, Paulo Kakinoff, celebrou o resultado. O importante, a seu ver, é que a empresa voltou a gerar caixa depois de dois anos. Em entrevista exclusiva ao Estado, Kakinoff conta que a empresa foi sondada por pelo menos três companhias aéreas europeias para negociar fatias minoritárias em troca de uma sólida integração comercial de longo prazo, em um modelo similar ao fechado em dezembro de 2011 com a americana Delta. Ele não descarta a possibilidade de levar adiante essas conversas.

A Gol também avalia criar uma subsidiária na República Dominicana, para ampliar voos entre as Américas Central, do Sul e do Norte. A seguir, os principais trechos da entrevista:

● A Gol registrou prejuízo líquido no primeiro trimestre. Por que vocês estão comemorando?
Para nós, é um resultado positivo, uma vez que a Gol volta a ter lucro operacional depois de dois anos. Isso ocorre em um período em que o querosene de aviação alcançou o maior valor histórico no Brasil e ele representa 46% do nosso custo. Do ponto de vista operacional, foi uma conquista muito importante, no ambiente mais adverso que já tivemos. Por isso estamos celebrando.

● O formulário de referência da Gol enviado à SEC dizia que a empresa estava muito alavancada e poderia ter dificuldade para reduzir o endividamento.
O formulário é uma obrigatoriedade que a Gol tem de cumprir por ser uma empresa listada na bolsa americana. Esse documento prevê que sejam consideradas todas as possibilidades de variações de riscos. É o que se chama de worst case scenario, tudo o que pode acontecer em um situação extrema.

● A Gol tem problema de liquidez?
Não, pelo contrário. A Gol tem nesse exato momento uma posição extremamente confortável. A dívida financeira líquida da Gol é zero, algo incomum especialmente no mercado aéreo. Isso aparecerá no balanço do segundo trimestre, em função do movimento de capitalização que a empresa teve. A abertura de capital do Smiles trouxe aproximadamente R$ 1,1 bilhão em recursos para o caixa da Gol por meio da compra antecipada de bilhetes aéreos pelo Smiles.

● A Gol vendeu 3% de suas ações para a Delta no fim de 2011. A empresa pode vender mais ações para se capitalizar?
Não temos necessidade nem planos de vender ações com o objetivo de capitalização. Porém, podemos fechar novas parcerias com esse mesmo modelo que fizemos com a Delta. Não é um modelo de capitalização. É um modelo de expansão da nossa própria malha. Com a operação de full codeshare (compartilhamento de voos) com a Delta, que começamos na semana passada, é como se as duas malhas se somassem. Esse modelo só é construído na medida em que há uma perspectiva de relacionamento de longo prazo. A aquisição das ações das empresas dá esse nível de comprometimento, de estabilidade e integração gerencial. A nova malha da Gol, que foi implementada em 23 de fevereiro, foi desenvolvida em conjunto com a malha da Delta, para dar plena conectividade entre os voos das duas empresas. Esse tipo de casamento você só faz quando há um nível de vínculo muito forte e de longo prazo.

● A Gol está em negociação com alguma companhia?
Não estamos negociando ainda. O que nos interessa é oferecer ao passageiro a possibilidade de comprar uma passagem com a Gol para levá-lo aos destinos mais demandados no exterior, que são a América do Norte e a Europa. Já somos parceiros da Delta e, no momento, estamos avaliando cenários de parcerias com empresas europeias.

● Com quais vocês já falaram?
Não posso falar. Mas já fomos procurados por três companhias aéreas europeias interessadas em estudar uma parceria com a Gol. Estamos discutindo possibilidades.

● Como seria? Eles vão comprar uma participação da Gol ou o contrário?
O modelo é totalmente indefinido. Mas seria um acordo que nos permitisse desenvolver um projeto com o mesmo nível de compromisso que existe hoje entre Gol e Delta. Normalmente, esse nível de compromisso se consegue com transação envolvendo equities, como foi com a Delta. Mas qual o modelo, quando e com quem são pontos que ainda está indefinidos.

● Esse modelo de venda de participações minoritárias e parcerias operacionais com companhias estrangeiras é mais vantajoso que o de alianças internacionais?
Para a Gol, sim. Esse modelo de alianças envolve um custo operacional que é rateado entre as companhias. Mas boa parte desse custo envolve operações que não serão utilizadas para o consumidor da Gol. A Gol, como companhia de baixo custo, precisa manter uma estrutura enxuta e que seja utilizada ao máximo. Para nós, é mais interessante investir em uma parceria com empresa que atue em um mercado que, de fato, seja demandado pelo consumidor brasileiro.

● Autoridades da República Dominicana têm afirmado que a Gol vai criar uma empresa no Caribe. Esse projeto existe realmente?
Existe essa possibilidade e isso será uma consequência natural da evolução do projeto de expansão da oferta internacional.

Qual é o plano?
Para conectar a América do Norte com a América do Sul com voos operados pelas nossas aeronaves, precisamos fazer uma escala em uma determinada latitude. A nossa intenção é estabelecer a cidade de Santo Domingo, na República Dominicana, como base operacional desses voos. Assim, naturalmente, essa localidade passa a se comportar como um hub (centro de distribuição de voos) da Gol. Assim como acontece em todos os países, o governo dominicano oferece condições diferenciadas para empresas nacionais operarem no país. Essas condições estão neste momento sendo discutidas, primeiramente para facilitar a ampliação da nossa malha passando por Santo Domingo. Em uma segunda etapa, pode ser interessante para a Gol do ponto de vista econômico e operacional estabelecer uma empresa dominicana.

● Mas a empresa seria apenas um CNPJ para aproveitar incentivos fiscais ou uma subsidiária da Gol com operação separada?
Seria uma empresa com constituição local, com equipe local e frota própria. Mas essa frota poderia ser perfeitamente remanejada da frota da Gol para a da República Dominicana. Esse projeto é possível, mas não há qualquer decisão já tomada.

● Quando vocês decidirão?
Primeiro precisamos testar essas rotas. Ou seja, ampliar as operações da Gol a partir de Santo Domingo. Nós já temos previsão de começar a voar para novos destinos no segundo semestre tanto para a América Central e Caribe quanto para os Estados Unidos. Na medida em que esses destinos se mostrarem interessantes aí a ideia de uma subsidiária dominicana começa a tomar corpo.

● Quando a Gol voltará a ampliar a oferta no mercado doméstico?
Nossa projeção é uma redução de 5% e 8% na oferta doméstica em 2013. Hoje esse viés está mais próximo de 8%, podendo ser até acima disso. Depende do crescimento da economia.

COLABOROU FERNANDO SCHELLER

QUEM É
Paulo Kakinoff assumiu a presidência da Gol em junho de 2012, aos 37 anos. Ele começou sua carreira como estagiário, aos 18 anos, na Volkswagen do Brasil. Comandou as áreas de marketing e vendas, foi diretor executivo para a América do Sul e, por último, presidente da Audi no Brasil.

Desempenho operacional da Gol surpreende mercado
O prejuízo bilionário registrado pela companhia no ano passado e a drástica reestruturação fizeram com que a Gol acumulasse, desde janeiro, perdas de 8,1% na bolsa de valores. Ontem, no entanto, os resultados operacionais fizeram a companhia aérea dar um primeiro passo no processo de reconciliação com o mercado. Os papéis subiram 3,3% no dia, apesar de o prejuízo líquido de R$ 75,2 milhões no primeiro trimestre deste ano ter sido 81,8% superior ao do mesmo período do ano passado. O ponto positivo do balanço, para os analistas, está nas melhoras que a companhia conseguiu obter na operação. O lucro operacional somou R$ 101 milhões, o que representa um crescimento de 1.293% se comparado aos R$ 7 milhões do primeiro trimestre de 2012. A margem operacional cresceu 4,6 pontos porcentuais, passando de 0,3% para 4,9%. Para os analistas do JPMorgan, os resultados vieram melhores do que o esperado, com destaque para a margem Ebtida, a expansão da receita líquida de passageiro por assento e por quilômetro oferecido e a redução do custo operacional por assento disponível por quilômetro. O Bofa Merrill Lynch também gostou da melhora operacional da empresa, afirmando que essa foi a grande surpresa positiva do balanço da companhia aérea. “Esse crescimento foi atingido em um cenário de pressão nos custos operacionais na comparação com o mesmo período anterior, representado pelo aumento em 14% no preço do combustível (patamar recorde para um trimestre), desvalorização do real frente ao dólar em 12% e umaumento de tarifas aeroportuárias e de conexão acima de 10%”, destacou o presidente da Gol, Paulo Sérgio Kakinoff. / LUCIANA COLLET

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