Incêndio em avião Dreamliner agrava problemas da Boeing

Folha de São Paulo
Sábado, 13 de julho de 2013


Incidente em Londres, sem vítimas, soma dúvidas sobre riscos com baterias do novo modelo
Causas seguiam sem explicação até a noite de ontem; aeronave estava estacionada no aeroporto Heathrow

BERNARDO MELLO FRANCO
DE LONDRES

As ações da Boeing sofreram novo golpe e fecharam ontem em baixa de 4,7% na Bolsa de Nova York após outro incidente com o 787 Dreamliner, o avião de maior porte da empresa.

Um incêndio que não havia sido explicado até a conclusão desta edição destruiu parte de um jato da Ethiopian Airlines no pátio do aeroporto de Heathrow, em Londres.

A aeronave estava estacionada no local havia cerca de oito horas, sem passageiros a bordo. Não houve feridos.

O incêndio fechou as duas pistas de Heathrow, o maior aeroporto do Reino Unido, por mais de uma hora, atrasando centenas de voos programados em toda a Europa.

Autoridades britânicas e americanas foram enviadas ao local para investigar as causas do fogo.

A Boeing se recusou a informar se o fogo está relacionado com as baterias de íons de lítio do 787, que apresentaram problemas de superaquecimento no início do ano.

“Estamos cientes do acontecido com o 787 em Heathrow. Trabalhamos para entender o que ocorreu”, afirmou a empresa em nota.

A Ethiopian informou que seus técnicos de manutenção já haviam encontrado problemas no ar-condicionado do Dreamliner. Os funcionários teriam notado presença de faíscas, mas não de fogo.

CRISE

O incidente não foi o único com um Boeing 787 ontem, o que assustou ainda mais os investidores. No aeroporto de Manchester, uma aeronave da Thomson Airways rumo à Flórida teve que retornar logo após a decolagem “por precaução”, segundo a companhia, que não explicou o ocorrido. Não houve feridos.

Analistas citados pelo jornal “Financial Times” avaliam que o caso pode causar danos aos negócios da Boeing caso seja atestada uma ligação entre o fogo e as baterias.

“Se houver relação com as baterias, eles vão ter problemas”, advertiu Nick Cunningham, da agência Partners.

Em janeiro, problemas com essas peças levaram as autoridades de segurança aérea a suspender todos os voos com o modelo até que as peças fossem substituídas.

Cerca de 50 aeronaves ficaram sem voar até abril, e as empresas tiveram que trocá-las por outros modelos.

A Boeing diz ter 900 encomendas do Dreamliner, sua aposta para manter a liderança no segmento. O modelo é apresentado como mais eficiente, e sua fuselagem de carbono reduz o peso e o consumo de combustível no ar.

ANÁLISE
Incidente não poderia vir em pior hora para empresa
IGOR GIELOW
DIRETOR DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Não poderia vir em pior hora para a Boeing o incidente com o 787 da Ethiopian. O modelo havia voltado a voar regularmente no fim de abril, após uma proibição que durou três meses.

Em janeiro, incêndios e episódios de fumaça a bordo colocaram as baterias da aeronave sob suspeita, obrigando o “recall”. O problema parecia ter sido superado.

Pelas imagens disponíveis, o caso de ontem lembra o incêndio ocorrido num Boeing-787 em Boston, no dia 7 de janeiro.

Naquele incidente, o fogo começou em baterias localizadas perto do estabilizador vertical da cauda, justamente a região que aparentemente foi afetada ontem.

Lá ficam 2 dos 6 geradores auxiliares de energia do avião, alimentados por baterias, e não pela eletricidade decorrente do movimento da turbina durante o voo. Há baterias também na parte frontal do avião, sob o assoalho.

Uma característica inovadora do 787 é que ele trocou muitos sistemas mecânicos de controle por outros elétricos e dependentes mais dessas unidades próprias. O avião usa até cinco vezes mais eletricidade do que os modelos atuais em uso.

Isso gera, devido à redução de peso e aliado ao uso intensivo de materiais leves como fibra de carbono na estrutura, economia de combustível na ordem de até 20%.

O que especialistas questionam é se essa autossuficiência não gera sobrecargas. E que podem, ou não, ter algo a ver com o incidente de ontem no Reino Unido.

Teme-se na Boeing a “síndrome do Comet”, em referência ao inovador jato britânico dos anos 1950 que nunca reconquistou a confiança do público após aciden- tes por problemas que foram corrigidos.

A comparação é exagerada, até pela escala dos investimentos (US$ 32 bilhões em desenvolvimento) no 787, mas um sinal está aceso.

Por fim, há a ironia: a Ethiopian, que é a única empresa a voar o modelo para o Brasil, foi a primeira a retomar o uso do 787 depois do fim do “recall” neste ano.

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