Aposentados das extintas Varig e Transbrasil acampam no Congresso

10/08/2013 09h47

Ex-funcionários das companhias aéreas falidas querem reunião com Dilma.
Idosos dormem no chão e queixam-se do frio e da seca do ar condicionado.

Fabiano Costa
Do G1, em Brasília

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Grupo está acampado no Salão Verde desde terça e teve colchonetes apreendidos
(Foto: Fabiano Costa/G1)

Apenas com a roupa do corpo, um grupo de 27 ex-funcionários da Varig e da Transbrasil está acampado desde a última terça-feira (6) no salão verde da Câmara dos Deputados para pressionar a presidente Dilma Rousseff a recebê-lo no Palácio do Planalto. Os aposentados do fundo de pensão Aerus prometem se manter no Congresso Nacional até que seja confirmada a audiência com a chefe do Executivo.

Os antigos comandantes, comissários, mecânicos e assistentes administrativos das duas companhias aéreas falidas querem propor a Dilma que a União assuma os pagamentos das pensões do Aerus. Em contrapartida, prometem retirar todas as ações judiciais que pedem que o Executivo se responsabilize pelas dívidas do fundo.

Segundo a Aerus, os aposentados estariam recebendo apenas 8% do valor original da pensão

Desde 2006, quando o Aerus sofreu intervenção do governo federal por conta da falência da Varig, os beneficiários deixaram de receber as aposentadorias integrais. Os aposentados do Aerus reclamam que, atualmente, recebem apenas 8% do valor original da pensão.

A média de idade dos antigos funcionários das duas companhias aéreas que vieram a Brasília para tentar o encontro com Dilma é superior a 65 anos. No grupo, há idosos com 82 anos.

Eles desembarcaram na capital federal na terça, um dos dias mais movimentados no Congresso, e foram pedir o apoio dos parlamentares que integram a comissão externa da Câmara que acompanha a situação dos aposentados do fundo de pensão Aerus.

Na ocasião, o coordenador do colegiado, deputado Rubens Bueno (PPS-PR), intermediou uma audiência do grupo com o presidente da Casa, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN). Eles também se reuniram com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL).

Apesar de terem ouvido manifestações de apoio dos chefes da Câmara e do Senado, os aposentados dizem fazer questão de conversar diretamente com a presidente da República.

Segundo o diretor da Federação Nacional dos Trabalhadores da Aviação Civil, Osvaldo Rodrigues, Dilma teria dito a Renan Calheiros que está disposta a recebê-los, porém, por falta de tempo na agenda, não teria conseguido agendar uma audiência nesta semana.

A Secretaria-Geral da Presidência informou ao G1 que não recebeu pedido oficial dos aposentados para uma reunião no Planalto. A pasta, responsável pela interlocução do governo com a sociedade civil, disse ainda que a situação dos pagamentos a aposentados do Aerus está sendo analisada pelo Supremo Tribunal Federal em processo sob a relatoria da ministra Cármen Lúcia.

De acordo com a Secretaria-Geral, a magistrada decidiu favoravelmente ao pedido dos ex-funcionários da Varig e da Transbrasil, mas o ministro Joaquim Barbosa pediu vista durante o julgamento, o que impediu que fosse concluído.

A assessoria ressaltou que o Planalto aguarda a decisão final do Supremo, mas destacou que já está tomando as providências necessárias junto à Previdência Social e à Advocacia-Geral da União para agilizar os pagamentos caso prevaleça a posição da relatora da ação. Informou também que mantém contato permanente com o Sindicato dos Aeronautas para acompanhar a questão.

Acampamento improvisado
Decidido a deixar Brasília somente depois de apresentar as reivindicações a Dilma, o grupo resolveu acampar no Salão Verde. Eles não foram para o Palácio do Planalto porque imaginaram que seriam barrados pela segurança.

Na Câmara, o grupo se concentrou em uma área em formato de círculo próxima ao corredor que dá acesso ao gabinete de Henrique Alves. Lá, espalharam diversas faixas com mensagens para a presidente da República. Uma delas diz “Presidente Dilma, será que essa tortura nunca vai acabar?”.

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Acampados fizeram estoque de água por causa do
tempo seco
(Foto: Fabiano Costa/G1)

No local, há algumas poltronas, mas em número insuficiente para todos os pensionistas. Mesmo com idade avançada, muitos deles têm usado os carpetes verdes da Casa como cama. Na tarde desta sexta (9), em meio ao expediente da Câmara, quem passava pelo recinto podia ver parte dos ex-funcionários da Varig e da Transbrasil tirando cochilos sobre o chão.

Para fazer a higiene pessoal, os aposentados têm usado banheiros da Câmara. Eles, no entanto, reclamam que na última noite a Polícia Legislativa fechou o acesso ao banheiro mais próximo ao Salão Verde, obrigando-os a caminhar na madrugada até o piso inferior do Legislativo.

As refeições dos aeronautas também têm sido feitas na Câmara. Pela manhã, assessores da comissão externa do Aerus têm fornecido alimentos para que eles tomem o café-da-manhã. O almoço e a janta, contudo, são realizados nos restaurantes do parlamento. Já água e refrigerantes estão estocados em fardos em pleno Salão Verde para amenizar os efeitos da forte seca que atinge o Distrito Federal nesta semana.

De acordo com Osvaldo Rodrigues, na noite desta quinta (8), policiais legislativos confiscaram colchonetes que haviam sido levados para os ex-funcionários da Varig. O diretor da Fentac, que, apesar de ainda não estar aposentado decidiu acampar junto com os pensionistas do Aerus, também se queixou de que a o ar-condicionado da Casa foi colocado na potência fria durante a madrugada, o que teria causado incomodo aos idosos.

Mesmo em condições adversas para a idade, o grupo enfatiza que não pretende desistir do protesto. Para se distrair, alguns assistem à televisão em telefones celulares. Outros usam um notebook que foi instalado no Salão Verde para se comunicar com amigos e familiares por meio da internet. Uma webcam foi acoplada ao equipamento e tem transmitido ao vivo a manifestação.


Ex-funcionários da Varig e Transbrasil evitaram Planalto para não serem expulsos e
dizem que não deixam a Câmara enquanto não forem recebidos por Dilma
(Foto: Fabiano Costa/G1)

Aos 82 anos, o ex-comandante da Varig Zoroastro Ferreira assegura que não irá sair do Congresso enquanto não for confirmada a audiência com a presidente da República. No momento em que o G1 foi conversar com o aposentado do Aerus, ele estava dormindo no chão, dentro do círculo formado pelos pensionistas.

Natural de Campinas (SP), Ferreira trabalhou durante 38 anos para as empresas Varig e Cruzeiro do Sul. Ao longo da carreira, pilotou aeronaves de grande porte como o Airbus 310.

Após quase quatro décadas comandando o manche dos aviões das duas companhias aéreas brasileiras, ele se aposentou em 1986 com um alto padrão de vida. À época, contou o ex-comandante, ele recebia o equivalente a R$ 9 mil do fundo de pensão Aerus e outros 12 salários mínimos da Previdência Social.

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Acampado na Câmara, aposentado conversa
a com família (Foto: Fabiano Costa/G1)

Em 2006, a falência da Varig e a subsequente intervenção do governo no fundo Aerus acabaram com os planos de uma aposentadoria tranquila do ex-piloto paulista. De uma hora para outra, ele passou a receber menos de um salário mínimo da previdência privada.

A queda brusca na renda o obrigou a se desfazer da maior parte do patrimônio. Segundo Ferreira, lhe sobrou apenas uma casa que ele havia passado para o nome dos cinco filhos.

Diabético, hipertenso e cardiopata, o antigo comandante da Varig gasta atualmente mais da metade da pensão do Aerus com remédios. Com o crachá que usava nos tempos em que pilotava grandes aviões no peito, Ferreira disse que pretende pedir pessoalmente à presidente da República a restituição das aposentadorias integrais do fundo.

Não podemos ser culpados por uma coisa que pagamos a vida inteira. Deixamos de ganhar porque o governo não fiscalizou os fundos de pensão. Queremos pedir a Dilma para ela acabar com essa calamidade”
Zoroastro Ferreira, 82,
aposentado da Varig

“Não podemos ser culpados por uma coisa que pagamos a vida inteira. Deixamos de ganhar porque o governo não fiscalizou os fundos de pensão. Queremos pedir a Dilma para ela acabar com essa calamidade”, ressaltou.

Colega de acampamento de Ferreira, a ex-comissária de bordo Vera Leal, 60 anos, disse que, se for preciso, está disposta a transferir sua casa para o Salão Verde para conseguir falar com a presidente. A carioca, que trabalhou nas companhias aéreas Cruzeiro do Sul e Varig, se aposentou em 2000.

Ela contou que apesar de ter contribuído ao longo de 27 anos para o Aerus, hoje ganha apenas 8% do valor que deveria receber mensalmente do fundo de pensão. Com lágrimas nos olhos, Vera disse que a batalha para tentar recuperar o investimento no fundo de pensão tem sido “desagradável e desgastante”.

“Estamos em uma situação na qual não sabemos como será o nosso amanhã. Desde 2006, mais de 800 aposentados do Aerus já morreram sem que se tenha resolvido o problema. O nosso emocional está acabando”, disse a ex-comissária.
(Colaborou Nathalia Passarinho)

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Acampados se dispuseram a passar o fim de semana na Câmara
(Foto: Fabiano Costa/G1)

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