Simulador reproduz turbulência que atingiu voo da TAM

G1
09/09/2013 01h28

Que turbulência é essa, que radares não detectam e que pode causar muito estrago? Nossos repórteres explicam o que aconteceu no voo 8065.
Fantástico

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Uma turbulência que chegou de repente deixou vários passageiros feridos em um voo que vinha de Madri para São Paulo, no início da semana. Duas mulheres que se feriram mais gravemente tiveram que ser operadas, e ainda estão no hospital. Mas que tipo de turbulência é essa, que os radares não detectam e que pode causar muito estrago? Nossos repórteres em São Paulo e na Inglaterra explicam o que aconteceu no voo 8065.

Respingos de sangue, buracos no teto, passageiros feridos. São imagens inéditas, feitas depois de uma turbulência assustadora.

Na noite de domingo passado (1), o Airbus 330 da TAM decolou do aeroporto de Barajas, em Madri, rumo a São Paulo. O voo 8065 seguia tranquilo até mais ou menos metade do trajeto, mas tudo mudou por volta de 0h30, hora de Brasília, da segunda-feira, 2 de setembro.

“O avião deu uma queda. Não sei precisamente de quanto, mas uma queda livre. E quando ele sustentou, foi como se ele tivesse batido em algum lugar, no chão, por exemplo”, relata a empresária Renata Moreira.
“Foi tudo de repente, ele não vinha chacoalhando não”, lembra o programador Ricardo Pontes. ”Achei que fosse morrer. Só me ajeitei na poltrona e estava esperando o final”.

“Tinha muita gente sangrando, tinha gente com fratura. Fiquei imaginando que o avião nem conseguiria chegar a Fortaleza”, recorda o empresário Vagner Moreira.”Eu achei que tinha danificado a estrutura pelo impacto muito forte”.

O Airbus precisou fazer um pouso de emergência na capital do Ceará. Veja a mensagem do piloto momentos antes do pouso: “Nós temos quatro passageiros feridos com mais gravidade, com suspeita de braço quebrado, ok? Temos outros com cortes variados, cortes na cabeça, no rosto”.

Entre os feridos, estavam a funcionária pública Luciana Melo e o marido, o pedreiro Nilton, que voava pela primeira vez. Ela bateu o rosto. Ele quebrou uma costela.

“Quando eu despertei, ele já estava no chão gritando de dor: ‘Bem, pelo amor de Deus, nós vai (sic) morrer todo mundo’. Eu falei: ‘vai mesmo’. Eu bati com a cabeça assim no teto. Quando eu voltei, eu já caí sentada na outra poltrona”, conta Luciana. “E a menina que estava no banheiro machucou demais. Nossa, tadinha”.

A menina é a colombiana Tatiana Indira, que fraturou a coluna. Ela estava bem ao lado da peruana Graciela Aguillar, que quebrou a clavícula. Foram as vítimas mais graves. Ainda internadas em Fortaleza, deram ao ‘Fantástico’ sua primeira entrevista sobre o caso.

“Ela saía do banheiro, eu entrava. De uma hora para a outra, o avião me golpeou. Bati contra o teto, a cabeça e as costas, e caí no chão sobre os braços”, conta Tatiana.

“A turbulência foi muito forte. Era como uma serpente veloz que corria e baixava e subia e que sacudia por todos os lados. Só me lembro de estar caída, de ver as aeromoças caídas. Vi tudo que caía. ‘Senhor de Nazaré, não me abandone’. Só isso, eu disse”, relembra Graciela.

Mas o que aconteceu para o avião despencar de repente? Num túnel de vento na Universidade de São Paulo, em São Carlos, conseguimos visualizar o efeito da turbulência.

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O formato das asas é o que sustenta o avião. O ar passa por cima mais rápido do que por baixo. Por causa disso, o ar de baixo empurra a asa para o alto. É a força de sustentação. Em algumas situações, como dentro de uma nuvem de chuva ou perto de uma montanha, existem muitas variações de velocidade e direção do ar. A sustentação também muda, e a aeronave balança. Isso é a turbulência. A sorte é que tanto as nuvens pesadas quanto as montanhas aparecem no radar do avião.

“Qual é a tática? Desvia ou passa por cima, desvia lateralmente, ou evita”, explicou Fernando Catalano, engenheiro aeronáutico da USP.

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Mas existe um outro tipo de turbulência, que o radar não pega. É a chamada “turbulência de céu claro”. Segundo o que o comandante disse aos passageiros, foi isso que aconteceu no voo que vinha de Madri.

A turbulência de céu claro acontece por causa de mudanças repentinas de pressão e temperatura no ar.

“Até a atmosfera se ajustar, equalizar essa temperatura novamente, ela vai fazer isso com movimentos de ar e isso é turbulência. Atualmente, essa tendência é aumentar. Isso é um dos efeitos colaterais do aquecimento global”, afirmou Catalano.

Agora que nós já conhecemos a teoria, vamos à prática. Na Inglaterra, o repórter Roberto Kovalick entrou num simulador de um grande jato comercial para enfrentar turbulência máxima.
O simulador é de um Boeing 737, um modelo diferente do avião que passou pela turbulência. Mas segundo o instrutor, a sensação é exatamente igual.

O simulador consegue reproduzir nove níveis de turbulência. O nível nove é o pior que os aviões geralmente encontram. O instrutor e piloto Unash Daswani conta que já enfrentou uma turbulência de nível nove num voo real.

“Foi muito rápido, foram literalmente 30 segundos. As coisas começaram a voar pela cabine, estava no meio do jantar, as bandejas caíram no chão. Foi desconcertante, mas felizmente ninguém se machucou. Todos estavam em seus assentos”, contou Daswani.

No simulador, é só apertar um botão e o aparelho começa a balançar.

“Parece uma estrada extremamente esburacada, ou que a gente está numa batedeira, num liquidificador”, explica o repórter Roberto Kovalick. “A turbulência que estamos enfrentando é igual à que atingiu o voo da TAM. É a chamada ‘turbulência de céu claro’ porque não há nada – como nuvens, por exemplo – que indique que ela vai atingir o avião”.

“Você vê um belo e tranquilo horizonte e, de repente, a turbulência começa a balançar o avião. Não há nada no radar ou qualquer outra coisa. Você é pego de surpresa”, disse Daswani.

“Nós já estamos chacoalhando neste simulador por uns 10 minutos, e a sensação é muito desagradável, principalmente aqui no estômago, que fica balançando da direita para esquerda, de cima para baixo. A sensação é terrível”, relata o repórter.

Por mais assustadora que uma turbulência de céu claro pareça, nosso instrutor garante que é praticamente impossível que ela derrube um avião.

“A turbulência pode atrapalhar a direção, a velocidade e a altitude de um avião, porque ele fica balançando de cima para baixo dentro de bolsões de ar. Mas estas aeronaves são tão bem projetadas e construídas que os passageiros e os pilotos podem até se ferir, mas o avião não será afetado nem vai perder a sua capacidade de voar”, garante Daswani.

No Brasil, o professor de engenharia aeronáutica explica a única maneira de o passageiro se proteger: apertar os cintos, sempre.

“A única garantia que você pode ter é que você não vai sofrer um sério trauma. Quanto mais você estiver seguro no seu assento, melhor”, apontou Fernando Catalano.

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