Desconforto em voos gera reclamações

Tribuna do Norte – RN
09 de Outubro de 2013 às 00:00

Daísa Alves – repórter

Antes de embarcar, uma parada para o lanche. Afinal, não é certo que haverá serviço de bordo com alimentação no avião. Este é raciocínio de diversos passageiros, dentre eles, Iria Fátima Mendes, 40, operadora de telemarketing. Ela conta que se alimenta na praça de alimentação do aeroporto como precaução para as três horas de viagem que irá enfrentar. Há tempos que a companhia aérea que ela costuma viajar, Gol, cobra pelo serviço.

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Passageiros de companhias aéreas fazem uma lista de reclamações. A falta de alimentação
nos voos é mencionada pela maioria

A reclamação sobre o conforto nas viagens de avião não param por aí. Desligamento de ar condicionado, assentos em tamanho reduzido, diminuição na quantidade de comissários de bordo, também fazem parte da lista de prejuízos aos passageiros nos últimos tempos. A situação causa preocupação no trade turístico, visto que 90% dos turistas que se destinam ao Rio Grande do Norte utilizam o transporte aéreo.

O cenário atual é desolador. Companhias aéreas têm sofrido prejuízos milionários e estão cortando despesas para o equilíbrio econômico. Passagens aéreas antes barateadas, voltam a subir de preço. O problema é que o corte de gastos para economia tem atingido diretamente o conforto dos passageiros que reclamam cada vez mais do serviço prestado. Iria Mendes é uma das passageiras assíduas dos aviões e fica transtornada com a atual situação. “Pagamos uma fortuna pela passagem de avião e não temos mais o serviço completo.”, reclama.

A falta do oferecimento de lanche durante a viagem, em detrimento do alto valor das passagens, é a principal das reclamações dos viajantes. “A gente paga a passagem e ainda tem que pagar o alimento. É um absurdo. Antigamente serviam de tudo”, considera Volber Silva, que sempre viaja no período de 25 dias, e, frequentemente, lida com o desconforto.

Para Felipe Ferreira, 20, balanceiro de concreto, as duas horas de viagem de São Paulo para Natal foram semelhantes a uma tortura. Os assentos dos aviões não comportam com facilidade o seu corpo de 1, 82 metros. “Na cadeira nem coube minhas pernas direito, tive que ficar de ladinho a viagem inteira. Vim a viagem inteira contando os minutos para chegar, estava sem conforto algum. Estava sentando no canto da janela, era pior ainda. Até pra levantar é complicado”, relata.

“Em comparação ao passado, acho que esse é o pior momento das empresas aéreas”, considera Henrique Sanches, 34, consultor de informática. Ele viaja uma vez por mês para São Paulo a trabalho e tem percebido a diminuição na qualidade do serviço aéreo. Sanches conta que teve dificuldade até para ser servido com um copo d’água, e, por vezes, percebe o ar condicionado desligado.

“Percebo que caiu bastante a qualidade, a comodidade da viagem. Viajei na gol dia desses e me serviram um copo d’água com muito custo, parecia um grande favor que estavam me fazendo. Em três horas e meia de viagem, o mínimo que merecíamos é uma boa alimentação”, relata Sanches. “A TAM já foi referência na qualidade, hoje diminui. Percebo que algumas vezes desligam o ar condicionado, deve ser para economizar”.

Empresas cortam gastos para evitar prejuízo financeiro

As reclamações dos viajantes aéreos têm fundamento real. Para poupar combustível, a TAM passou a desligar o ar condicionado da cabine dos passageiros quando o avião está no chão durante as conexões, o que pode durar 15 minutos.

A Azul faz algo semelhante, mas em menor proporção. Só com o avião parado no gate e com a porta aberta para ventilação. A Gol, por sua vez, não alterou o ar, mas cortou serviços. Em maio, acabaram com o serviço de alimentação gratuito na maioria dos vôos, somente a água é servido de graça.

Segundo Eduardo Sanovicz, presidente da Associação Brasileira de Empresas Aéreas (Abear), as companhias enfrentam dificuldades financeiras e estão cortando despesas para o equilíbrio econômico. “Elas estão fazendo a lição de casa”, comenta. Entre as dificuldades que o setor enfrenta estão a alta do dólar “de 15% a 18% mais caro e que impacta em 65% nos custos”.

Mais problemas são listados pelo presidente. A alta incidência de impostos e o alto valor do combustível contribuem para a crise no setor, conta. Para atingir a meta de transportar 200 milhões de passageiros por ano em 2020, a associação quer a unificação do ICMS cobrado pelos Estados e a revisão da política de preços da Petrobras.

Crise pode afetar turismo no Estado

A dificuldade nas empresas aéreas causa preocupação no trade turístico. Segundo, Habib Chalita, presidente da Associação Brasileira da Indústrias de Hotéis do Rio Grande do Norte (Abih- RN), 90% dos turistas vêm por vias aéreas. “Estamos num patamar de concorrência inferior aos outros destinos, ainda dependemos dos turistas aéreos”, conta.

“Não resta dúvida que essa crise reflete na atividade turística do estado”, declara Renato Fernandes, secretario Estadual de Turismo. Ele comenta que a justificativa do corte de gastos era a diminuição no valor das passagens, no entanto, está redução não está acontecendo.

“A desculpa das empresas seria para a passagem não aumentar, mas isto não está acontecendo. Vemos agora a redução de assentos, redução de espaço entre eles e as passagens só fazem aumentar. Quando se compra uma passagem faltando 48h, ou 24h, o valor quase dobra, e pior, com o avião lotado. Não justifica.”, reclama, lembrando ainda a perda recente de quatro vôos com destino direto para Natal.

A secretaria de turismo e o trade turístico discute, desde março deste ano, a possibilidade de diminuir os tributos estaduais que incidem sobre o querosene de aviação para vôos charters. Eles defendem a desoneração como como forma de baratear o preço dos pacotes turístico e aumentar a frequência de vôos fretados para Natal.

É uma questão de negociação. Para José Airton, secretário de Estado de Tributação (SET), para se realizar uma desoneração é necessário estabelecer critérios objetivos. “Se junte a mesa todos os agentes para pensar quantos vôos podem trazer e o quanto compensam essa desoneração, esse é um critério objetivo. Não podemos esquecer que as empresas de transporte urbano também pedem desoneração, é uma pressão alta em cima do governo”, encerra.

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