Notícias Varig – 132 – Entre a crise e a comemoração: ex-pilotos da primeira turma da Varig marcam reencontro

Diário Catarinense
23/11/2013 | 15h09
Seis décadas depois


Veteranos, acostumados a ver o mundo de cima, tiveram aposentadorias reduzidas em 92% após falência da companhia
Cristian Weiss
cristian.weiss@diario.com.br

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Ex-piloto, Fredy Wiedemeyer quer reunir a primeira turma da escola da Varig
Foto: Jessé Giotti / Agencia RBS

Eles foram donos dos céus, senhores do ar, soberanos das asas. Na cabine de comando de modestos DC-3 ou possantes Boeing 747, foram reverenciados por chefes de estado e tietados por celebridades. No princípio eram 16. Restaram os seis, que somam mais de 160 mil horas nas alturas.Aos cinco continentes, levaram a insígnia da Varig no leme dos aviões e desfrutaram o apogeu de uma das maiores do mundo.

Recordam-se em tom passional os lugares que avistaram do alto e que pisaram por terra. Mas o mundo os esqueceu. Os ex-comandantes Fredy Wiedemeyer, Alfredo Flemming, Luiz Achutti, Ricardo Lobo, Jair Schütz e Mario Ungaretti são os remanescentes da primeira turma da Escola Varig de Aeronáutica (Evaer). Na próxima sexta, vão se reencontrar em Porto Alegre para comemorar 60 anos de formatura.

Leia mais em:
A primeira turma de pilotos da Varig

Patrimônio perdido com a falência da companhia

Mas a celebração vem numa fase angustiante. Os veteranos estão entre os 17 mil dependentes do plano de previdência complementar Aerus — criado em 1982 para os ex-funcionários da Varig e da Transbrasil. Desde a falência da Varig — oficialmente em recuperação judicial _, em 2006, viram as aposentadorias se esvaírem, reduzidas em 92% sobre o valor a que têm direito.

A comemoração às seis décadas será singela: uma cerimônia na Igreja São José, no Centro da capital gaúcha, seguida do almoço para relembrar as velhas histórias. Os veteranos que ocuparam o posto mais alto da aviação civil agora recorrem à solidariedade de familiares e amigos para seguir de avião a Porto Alegre. Mês que vem, o Aerus deve pagar a última parcela, enquanto o processo indenizatório tramita na Justiça.

Passageiros célebres e escalas pelo Estado

Em meio à turbulência, Fredy Kurt Wiedemeyer é o agitador do reencontro. Do quarto de 10 metros quadrados no apartamento onde mora, no Norte da Ilha, em Florianópolis, abarrotado de estátuas e relíquias dos países por onde andou, articula com os ex-colegas pelo telefone a reunião.

O gorro de couro usado no primeiro voo, a miniatura do avião a hélice do início da carreira e o diploma da Evaer estão expostos com esmero. Aos 79 anos, viúvo duas vezes, o porto-alegrense vive há 21 em Santa Catarina, desde que se aposentou.

Percorreu 64 países, dominou cinco idiomas, morou em Lisboa, Los Angeles e Roma. As estrelas de cinema Lana Turner, Rock Hudson, Romy Schneider e Catherine Deneuve viajaram com ele. Enquanto presidentes, Juscelino Kubitschek, João Goulart e Fernando Collor e o secretário-geral da ONU, Kurt Walheim, cumprimentaram-no na cabine. Em 1980, fora abordado várias vezes por um curioso João Paulo II, na viagem de volta a Roma, deslumbrado com a paisagem amazônica.

— Ele queria que mandássemos uma mensagem via rádio para cada presidente dos países por onde passássemos. O pior é que eu não sabia o nome deles — relembra do aperto.

Primeiras rotas tinham escalas em SC

Wiedemeyer não é o único saudosista. Os outros colegas também são movidos pelas lembranças da empresa em que “tudo funcionava”.

— Ainda sonho com as coisas que eu vivi. As conversas com os colegas na cabine. Minha felicidade se deve ao fato de eu ter conseguido voar na Varig — suspira Ricardo Lobo, 85 anos, morador do Rio de Janeiro.

Na década de 1960, o ex-comandante pilotava um DC-3 com capacidade para 30 passageiros, que saía de Porto Alegre e pipocava entre Tubarão, Araranguá, Florianópolis, Navegantes, São Paulo até chegar ao Rio. Alguns dos aeroportos catarinenses eram meros campos de aterrissagem. No fim, Lobo alcançou o posto de piloto-chefe da companhia.

O mais rodado é Jair Schütz, 81, de Porto Alegre. Jura que foram mais de 40 mil horas no ar, como se passasse quatro anos e meio a viajar, sem paradas.

Viúvo há um ano, Luiz Achutti, 84, vive no apartamento da Rua 24 de Outubro, na capital gaúcha. Faz as contas no caderno onde anotara todas as rotas e descobre: só para Nova York foram 230 viagens, além de outras 400 travessias do Atlântico rumo à Europa, a bordo do Jumbo 747.

— Era uma vida muito boa. A gente era respeitado. Piloto era tratado como autoridade. E a Varig custeava tudo. Isso não existe mais hoje. Nem é possível mais manter, por causa dos custos.

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