Celular no avião: o fim da paz nos voos?

Valor Econômico
27/11/2013 às 05h00

Por Ryan Knutson
The Wall Street Journal

Se as ligações celulares chegarem aos aviões, isso irá provavelmente provocar o apelo mais recente por boas maneiras.

Isso ainda deve demorar um pouco para acontecer e uma boa parte da população de passageiros pode ser considerada educada. Mas os especialistas em etiqueta já furiosos com a proliferação de grosserias digitais não estão nada otimistas.

Jodi R.R. Smith, proprietária da firma americana de consultoria Mannersmith Etiquette, diz que o maior problema é a proximidade obrigatória. É difícil ser discreto quando só alguns centímetros separam um passageiro do outro. E não é possível fugir. “Se estou em um avião e o passageiro ao meu lado começa uma ligação, não há muitos lugares onde eu possa me esconder.”

Caso a FCC, a Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos, vá adiante com o plano de permitir ligações telefônicas nos aviões que estiverem acima de 10.000 pés, e se as empresas aéreas aderirem à novidade, uma solução poderia ser a criação de áreas específicas nos aviões para o falatório, ou voos específicos só para os passageiros tagarelas ou só para os silenciosos, assim como era feito com os fumantes.

Há quatro coisas que você deve levar em conta antes de fazer uma ligação num avião, segundo Smith:

Você vai incomodar quem está ao seu redor?

Você vai ignorar acompanhantes a quem deveria estar dando atenção?

Você vai discutir assuntos confidenciais?

É uma emergência?

A resposta para a última pergunta precisa ser “sim”, diz ela, e a ligação deve ser breve. “Eu acho que a grande maioria das pessoas vai compreender,” diz. “Serão apenas alguns que não vão e que tornarão a vida desconfortável para o resto de nós.”

O presidente do conselho da FCC, Tom Wheeler, disse na semana passada que não há razões técnicas para manter essa proibição que existe há tanto tempo. As companhias aéreas estão abordando a questão com cautela porque muitos passageiros têm expressado forte oposição ao uso de celulares a bordo.

“Acredito que brigas de tapas a 39.000 pés vão se tornar um lugar comum”, diz Alan Smith, um viajante frequente da Califórnia. “Eu ficaria aterrorizado se um cara bem grande, depois de alguns drinques, batesse em um passageiro que o estivesse incomodando por usar o telefone.”

A consultora de etiqueta Gret-chen Ditto, de Mineápolis, diz que o uso do celular nos aviões deve se tornar comum já que as nossas expectativas mudaram com relação a quando as pessoas devem estar acessíveis. Os passageiros vão se sentir obrigados a responder aos telefonemas, diz.

Aparelhos eletrônicos estão tomando conta das nossas vidas, diz a especialista em etiqueta Arden Clise, de Seattle. Nós digitamos no celular durante jantares românticos, respondemos e-mails durante reuniões. Fazer uma ligação no avião é apenas um pouquinho mais rude. “Nós estamos dizendo que os nossos aparelhos são mais importantes do que as pessoas que estão na nossa frente?”, questiona ela.

Se alguém incomodar você com uma ligação durante um voo, a consultora Mary Harris, de Nova Jersey, sugere que você peça educadamente para que a pessoa desligue. Se isso não acontecer, não há o que fazer.

Ligações celulares durante voos são autorizadas na Europa há vários anos. Mas o especialista em etiqueta britânico William Hanson diz que elas não se tornaram um hábito.

Se você precisar fazer uma ligação, ele aconselha que você saia do seu assento e vá para a área perto do banheiro ou da porta do avião. Se for durante a noite e as luzes estiverem apagadas, “você não deve nunca fazer a ligação no seu assento”, diz.

Nos EUA, as ligações em voos costumavam ser possíveis por meio de unidades do Airfone, um tipo de telefone instalado nas próprias aeronaves, mas a tecnologia nunca se tornou popular, em parte devido ao alto custo das chamadas.

A Associação Nacional de Aviação Civil, órgão regulador do setor aéreo no Brasil, informou que tem um acordo bilateral de cooperação técnica com a FAA, a agência de aviação dos EUA, e que está avaliando os novos procedimentos adotados por ela, assim como o relatório da FCC.

A única empresa aérea no Brasil que permite o uso de celular nos seus voos, com autorização da Anac, é a TAM. Mas isso porque no fim de 2010 ela começou a equipar parte da sua frota com um sistema específico de telefonia e transmissão via satélite, desenvolvido especialmente para aviões. Hoje a TAM oferece o serviço em 31 de suas aeronaves.

Segundo a consultora de etiqueta Jodi Smith, uma ligação rude não seria tão ruim quanto uma gafe que ela presenciou durante um voo nos EUA, há alguns anos. Seu vizinho de assento estava “vendo um filme pornô”, diz. “Isso foi mais incômodo para mim do que qualquer outra coisa.” Mas ela afirma que poderia ter sido pior. “Ele estava usando seu fone de ouvido, então pelo menos eu não ouvi nada.”

(Colaborou Silvana Mautone.)

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