TAM solicita à Anac mudar 40% dos voos durante a Copa

Folha de São Paulo
SEGUNDA-FEIRA, 23 DE DEZEMBRO DE 2013

MARIA CRISTINA FRIAS
cristina.frias@uol.com.br

ENTREVISTA – CLAUDIA SENDER

Presidente da companhia aérea projeta redução de receita e investimento maior para o período do mundial

A TAM pediu à Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) uma mudança de cerca de 40% de sua malha aérea para a Copa de 2014.

Tamanha revolução na empresa não deverá proporcionar um grande retorno econômico, de acordo com a presidente Claudia Sender.

“Um dos mitos em torno da Copa é que será um momento das companhias ganharem muito dinheiro. A projeção é de redução de receita e de um investimento maior”, diz.

“Cerca de 50% a 60%, dependendo da época, das nossas passagens são de viagens corporativas. Na Copa, teremos praticamente só passageiros de lazer que em média pagam bem menos que os que viajam a negócios.”

A companhia aérea antecipou à coluna as solicitações referentes a duas cidades, encaminhadas na sexta-feira passada, último dia do prazo dado pela agência reguladora às empresas do setor.

Fortaleza, para onde a companhia tem 28 voos diários, poderá receber durante o Mundial até 32 voos, a depender da aprovação da Anac, que divulgará a malha final até o dia 15 de janeiro.

Para Cuiabá, por sua vez, são hoje cinco voos por dia. A empresa solicitou a ampliação para 11.

A TAM opera cerca de 800 voos diários, com 120 aeronaves, em 42 aeroportos.

A seguir, trechos da entrevista dada na sede da empresa, em São Paulo.

“A grande complexidade da malha da Copa é refazer os trilhos [roteiros de voos diários] das 120 aeronaves e garantir que quando o Brasil for jogar em Fortaleza às 15h, os passageiros desembarquem às 11h”, afirma.

“A mobilidade urbana estará complexa nesses dias.”

A movimentação aérea também será intensa. Muitos torcedores não terão onde dormir nas cidades-sedes, prevê Sender.

O Castelão tem quase três vezes mais assentos que o número de leitos em Fortaleza, estima a CEO. “Vou ter de transportar 30 mil –20 mil que sejam– que não terão onde dormir em Fortaleza.”

“Não vai ter pátio para os aviões”, lista outro problema. “O aeroporto não tem capacidade para receber tantas aeronaves paradas. Todas as companhias têm o compromisso de fazer a Copa dar certo. Mas onde vou estacionar?”, pergunta a executiva.

“Vamos ter voos, muitos voos vazios”, responde ela mesma mais adiante. “A Anac se comprometeu a usar aeroportos alternativos e bases aéreas para estacionar aviões.”

“Precisa garantir onde deixar os aviões em Fortaleza, ou por perto, para que quando o jogo acabar, a gente possa tirar os passageiros de lá.” Pátios também entraram nas solicitações das companhias à Anac, conta, sem detalhar.

O absenteísmo nos dias de jogo é um dos riscos sobre os quais a companhia vem se debruçando. “Temos um grupo enorme de pessoas trabalhando no plano da Copa.”

Espalhadas pelas áreas, cerca de 120 pessoas, lideradas por 15 profissionais tentam se preparar para o evento. “Temos de garantir que não haja nenhuma manutenção pesada programada nesse período e que impeça que todas as nossas aeronaves estejam disponíveis, caso sejam necessárias.”

Funcionários que falem outros idiomas também é uma preocupação no radar. “Precisamos garantir [palavra repetida pela CEO] um reforço de equipes que conheçam outras línguas. A TAM, que está presente em 12 países participantes, se sente anfitriã na Copa.”

“Estamos contratando e escalando mais pessoas para garantir um reforço de tripulação e de outros profissionais. Antes [do evento], porque temos de treiná-las.” Não há um número fechado, mas o grande contingente será para a linha de frente: aeroporto e call center, diz.

“A verba crescerá 50% em 2014, em comparação a este ano, quando os recursos para treinamento aumentaram 25% em relação a 2012. “Não sei dizer o valor segregado [apenas para o Mundial], mas serão perto de R$ 60 milhões no ano que vem.”

Na África do Sul e na Alemanha, o movimento de viagens corporativas durante os jogos caiu de forma muito severa, diz ela sobre os relatos que ouviu da South African, da British e da Lufthansa.

“Vamos perder metade do nosso tráfego. E o passageiro de lazer, que viajaria normalmente em julho, estará tão focado na Copa, que deixará de voar. Empresas vão dispensar funcionários. Algumas escolas anteciparão as férias.”

Outro impacto negativo na demanda é que alguns estarão de férias durante os jogos, outros em julho. De um lado, cairão as viagens a negócios, e, de outro, a demanda por lazer normal se reduzirá não só pela divisão das escolas, mas pela imagem de que estará mais complicado viajar. E o impacto positivo é o do aumento, mas muito concentrado em certos dias e horários.

O passageiro a lazer diminui, confirmaram executivos de companhias aéreas de outros países que sediaram os jogos. “A nossa expectativa é que boa parte do tráfego seja compensada, mas com tarifas menores que as corporativas.”

“Um desafio logístico”, é a frase que define a Copa para a executiva. “Um grande desafio, cheio de novidades com a inauguração de aeroportos.” O de Brasília ficará muito bom, assim como o novo terminal paulista, avalia. Boa parte dos turistas estrangeiros chegará em São Paulo, de onde partirá para outros destinos.

A demanda no Rio será grande, tanto por ser sede da Fifa, a imprensa ficará lá, quanto pelos estrangeiros que vão querer passar pela cidade. São Paulo não ficará atrás como polo originador, pela infraestrutura hoteleira e pela presença de muitas delegações que deverão ficar na cidade. Fora isso, todos os locais em que o Brasil jogar.

“Não haverá voo extra. Entre cancelar e remarcar, mexeremos em 40% dos nossos voos, uma grande mudança por apenas um mês. Mas estamos todos animados.”

“Nosso papel é muito maior que em outros países, onde as distâncias são menores e há outros modais. Ninguém vai pegar um navio ou um trem para Manaus.”

“E se fechar o aeroporto? Outra preocupação é com nevoeiros em Porto Alegre. Se não conseguirem pousar e decolar, a hospedagem de passageiros e da tripulação também aumentará a pressão na companhia. “Ocupamos um bom número de leitos normalmente. A reserva de quartos já está sendo providenciada.”

“Se a mala demorar muito, o passageiro perderá a conexão, e os voos estarão lotados”, receia. “Quase na mesma proporção, teremos voos vazios. São 12 cidades, o deslocamento será enorme. Mas, no longo prazo, será ótimo para o Brasil e para a companhia. O Mundial dará mais visibilidade ao turismo.”

com LUCIANA DYNIEWICZ, LEANDRO MARTINS e ISADORA SPADONI

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