Copa do Mundo não atrai interesse das empresas aéreas estrangeiras

O Dia Online – RJ
07/01/2014 23:47:49

Legislação, falta de infraestrutura e de logística são motivos que afastam as companhias
DANIEL CARMONA

Rio – A pressão sobre companhias aéreas brasileiras para reduzir o preço das passagens na Copa do Mundo com a entrada das concorrentes estrangeiras em voos domésticos corre risco de não surtir efeito esperado para que os valores baixem. A tentativa do governo em atrair empresas lá de fora esbarra ainda na legislação nacional e na Convenção de Chicago, da qual o Brasil é um dos signatários e que prevê acordos bilaterais entre países.

Dificultando a vinda das estrangeiras, há entraves logísticos, como infraestrutura em aeroportos, custos de combustível, impostos e readequação de pilotos, treinamento e mudanças nos seguros de aviões. Tudo isso provoca o desinteresse das aéreas internacionais. Segundo especialistas e representantes do setor, não haveria tempo hábil para mudanças no Código Brasileiro de Aeronáutica e em todos os procedimentos para que companhias de outros países atendessem à demanda da Copa.

A tentativa do governo em atrair empresas de fora esbarra em legislações nacional e internacional Foto: Reprodução Internet

A tentativa do governo em atrair empresas de fora esbarra em legislações
nacional e internacional Foto: Reprodução Internet


Faltando cinco meses para a competição, boa parte das maiores empresas teriam dificuldades para remanejar suas aeronaves, caso de aceitassem o desafio. O problema é que o verão no Hemisfério Norte aumenta consideravelmente a demanda justamente nos meses de junho e julho, que coincidem com os jogos do mundial de futebol no Brasil.

Professor da UFRJ e especialista em transporte aéreo,Respício Espírito Santo considera que, além dos entraves logísticos e dos prazos curtos para estruturar e explorar rotas no país, as companhias aéreas estrangeiras também estariam desrespeitando acordos comerciais que elas mantêm com as empresas brasileiras. “As alianças devem ser respeitadas. E elas garantem a estabilidade das operações do mercado”, diz o especialista no setor.

A TAM, responsável por 40% dos passageiros transportados no país, opera dentro da Star Alliance com inúmeros acordos com companhias como TAP, United, Air Canada, Air China, Copa Airlines, Swiss e Lufthansa. Já a Gol tem acordos bilaterais com Delta, Air France KLM, Ibéria e Qatar Airways.

Legislação, falta de infraestrutura e de logística são motivos que afastam as companhias Foto: Paulo Araújo / Agência O Dia

Legislação, falta de infraestrutura e de logística são motivos que afastam
as companhias Foto: Paulo Araújo / Agência O Dia

Outro ponto destacado por Espírito Santo tem relação com o fato de algumas empresas estrangeiras participarem como acionistas em companhias nacionais. É o caso da Delta Airlines, que tem participação acionária na Gol.“Seria do interesse da Delta canibalizar a empresa brasileira onde ela tem participação?”, questiona.

Para ele, a tentativa de fazer com que as companhias estrangeiras entrem no mercado doméstico para pressionar a redução no preço das passagens não faz sentido.

Meta do governo era abrir o mercado
O governo pensou na possibilidade de abrir o mercado para as estrangeiras. Segundo uma fonte do setor, o próprio ministro da Secretaria de Aviação Civil (SAC), Moreira Franco, solicitou estudos de viabilidade. Mas ficou comprovado pela área técnica que a infraestrutura necessária para tal e mudanças na legislação seriam inviáveis.
O professor da UFRJ e especialista em transporte aéreo Respício Espírito Santo reforça a tese de que não é tão fácil fazer os preços das tarifas das passagens aéreas baixarem.
“Estamos há 14 anos em regime de liberdade tarifária. Portanto, sabemos que não é a oferta e a procura apenas o fator determinante para os preços. Há o custo do combustível, o clima, a eficiência das empresas aéreas. Espero que essa tentativa não dê em nada”, explica.
O consultor técnico da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), Adalberto Febeliano, diz que situações como essas, em que as empresas aéreas estrangeiras passam a atuar em outros países e os preços dos bilhetes acabam reduzidos, acontecem somente em casos extremos. “Mesmo países como Peru e Equador, que são muito abertos, também protegem o seu mercado”, cita como exemplo.

Sem interesse

Do lado das companhias aéreas estrangeiras, por sua vez, o interesse em atuar no país parece não existir. Elas deixam claro as dificuldades para direcionar seus aviões para atender a demanda brasileira durante a Copa do Mundo deste ano.

Aviões agendados

No escritório da companhia alemã Lufthansa, em Nova York, Nils Haupt, diretor de comunicações corporativas para as Américas, descarta ampliar as operações no Brasil. “Todas as nossas aeronaves já estão agendadas para os voos regulares do verão”, diz.

Operação difícil

Annette Taeuber, diretora geral da Lufthansa no país, comenta que se a mudança acontecesse de fato, seria uma operação difícil.

Bases logísticas

“Seria necessário implementar bases de logística terrestre em cidades onde não estamos presentes, adequar equipamentos, sistemas de venda de passagem”, avalia.

Surpresa

A franco-holandesa Air France-KLM, a inglesa British Airways, e as americanas American Airlines e Delta não se pronunciaram. Já Santiago de Juan, chefe de comunicações corporativas da espanhola Iberia, se surpreendeu. “Você está me dizendo que será possível voar dentro do Brasil?”.

Colaborou Erica Ribeiro

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