Mesmo com perda de receita, Azul define teto para voos na Copa

O Estado de S.Paulo
QUINTA-FEIRA, 9 DE JANEIRO DE 2014

Em jogada de marketing, em presa define preço máximo de R$ 999 para as viagens durante o mundial.
Marina Gazzoni

filipe araujo/estadão-28/4/2012

Demanda. Neeleman espera queda no número de passageiros corporativos na Copa

Demanda. Neeleman espera queda no número de passageiros corporativos na Copa

A companhia aérea Azul anunciou ontem um teto para o preço das passagens aéreas para voos durante a Copa do Mundo. Todas as viagens realizadas pela empresa durante os dias 12 de junho e 13 de julho, inclusive os voos com conexão, custarão no máximo R$ 999. A iniciativa atende às pressões do governo contra aumentos abusivos de preço durante o Mundial e faz parte de uma estratégia de marketing da companhia.

A definição de um teto para o valor das passagens muda temporariamente a fórmula de precificação da empresa. A maioria das companhias aéreas vende bilhetes a preços variados, definidos a partir de um algoritmo que considera fatores como antecedência da compra, ocupação do voo e sazonalidade. Quem compra uma passagem de última hora para uma data concorrida, como o carnaval ou a Copa, tende a pagar valores mais elevados. Não há preço máximo.

O presidente e fundador da Azul, David Neeleman, estimou que a companhia perderá R$ 20 milhões com a limitação dos preços para os voos da Copa. “E um investimento e uma questão de imagem. Não quero que
ninguém ache que a Azul está abusando dos brasileiros na Copa do Mundo”, disse Neeleman.

O limite já foi aplicado às oh de ontem no site da Azul e valerá para os voos extras da companhia para o evento. AAzU1 pediu à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) autorização para realizar 310 voos adicionais na Copa. Ao todo, a Anac recebeu 1.523 pedidos de operações extras de todas as empresas e divulgará a relação dos voos aprovados no próximo dia 15.

Apesar do aquecimento da demanda por transporte aéreo nas 12 cidades-sede da Copa durante os jogos, Neeleman prevê queda na demanda da Azul no período. “Para as nossas vendas, a Copa não será boa. Nossas receitas vão cair. Só 12 das 105 cidades para as quais voamos terão jogos”, explicou.

A expectativa é de que os passageiros corporativos, que somam 6o% do total, viajem menos durante a Copa. Segundo Neeleman, isso deve levar a empresa a cancelar cerca de 20% dos seus quase 900 voos diários no período.

Procuradas para comentar sua estratégia de preços durante a Copa, Gol e TAM disseram que aguardam a aprovação da malha aérea especial do período pela Anac.

Impacto. A limitação das tarifas da Azul deve fazer os voos da empresa encherem mais rápido do que os da concorrência, mas não coibirá a alta de preços, estima o professor de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Samy Dana. Segundo ele, os voos para as cidades-sede da Copa não serão suficientes para atender a todos os passageiros que pretendem desembarcar nessas cidades para assistir aos jogos, o que deve motivar uma alta das tarifas na concorrência. “Se a passagem de Gol e TAM passar de R$ 1 mil, os clientes vão optar pela Azul. Os voos vão lotar lá por março ou abril, e as pessoas terão de voltar para a Gol e a TAM, que poderão subir o preço”, disse.

Os aspectos políticos, no entanto, podem mudar a lógica de mercado, explica o consultor em aviação Nelson Riet. “AAzul correu na frente para fazer algo que todas as empresas aéreas já estão pensando, que é segurar os preços na Copa”, disse. “A decisão da Azul se justifica por pressões políticas.”

A ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, criticou os preços praticados pelas companhias aéreas brasileiras durante a Copa e ameaçou abrir o mercado interno a aéreas estrangeiras, em entrevista publicada no domingo pelo jornal Folha de S. Paulo.

Marketing
“O teto para o preço da passagem na Copa é uma questão de imagem. Não quero que ninguém ache que a Azul esta abusando dos brasileiros na Copa do Mundo.”
David Neeleman
FUNDADOR DA AZUL

Aérea defende estímulo para voo regional

No mesmo dia em que convocou a imprensa para anunciar um teto de tarifas para os voos durante a Copa, o fundador da Azul, David Neeleman, reforçou sua “confiança” no plano do governo de reformar 270 aeroportos regionais, anunciado em dezembro de 2012. “Eu confio neste plano”, disse. Segundo ele, a Azul poderia operar em 100 desses aeroportos nos próximos “cinco ou dez anos”.

“Isso dobraria o nosso número de destinos e precisaríamos comprar mais aviões da Embraer”, disse Neeleman.

Ele também lembrou que um dos pilares do plano é aumentar o espaço de empresas que fazem voos regionais no aeroporto de Congonhas. “A Azul atende o dobro de destinos de Gol e TAM e não tem slots (espaço) em Congonhas”, reclamou. “Os slots de Congonhas não são da Gol ou da TAM. São do povo brasileiro. Elas estão usando um ativo do povo”, disse, ressaltando que o preço da tarifa no local cairia com o aumento da concorrência no aeroporto.

Um ano depois do anúncio, as reformas nos aeroportos regionais ainda não começaram. A previsão da Secretaria deAviação Civil (SAC) é de que elas sejam iniciadas até março.

O argumento de Neeleman é de que as empresas aéreas já estão pagando a conta para subsidiar a aviação regional. As tarifas de conexões, aplicadas a partir de 2013, serviram para inflar o valor das concessões dos terminais — recursos que deveriam financiar a reforma de aeroportos regionais. A Azul estima que gastará R$ 6o milhões em 2014 com tarifas de conexão. / M.G.

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