Sequestro de avião expõe risco interno do setor

Valor Econômico
18/02/2014 às 05h00

Por Daniel Michaels | The Wall Street Journal

O sequestro de um jato da Ethiopian Airlines ontem por um copiloto em busca de asilo ilustra uma falha de segurança ainda presente na aviação mundial, apesar de anos de combate ao terrorismo: a ameaça dentro do próprio setor.

Após os ataques de 11 de setembro de 2001, autoridades em todo o mundo criaram novos procedimentos de triagem e segurança para evitar que passageiros, tripulantes e funcionários entrem com armas ou material perigoso a bordo.

Mas pessoas ligadas a empresas aéreas e aeroportos pelo mundo ainda assim foram implicadas em ataques terroristas, tráfico de drogas e roubos audaciosos nos últimos meses. Especialistas em segurança dizem que os casos mostram que pessoas de dentro do mundo da aviação ainda têm oportunidades de sobra de sabotar voos.

“Gastamos tanto tempo na área de segurança verificando se passageiros estão carregando itens proibidos que esquecemos de todas as outras questões de triagem”, diz Philip Baum, diretor da Green Light., uma consultoria de segurança na aviação de Londres.

No sequestro de ontem, o copiloto tinha a intenção de pedir asilo, segundo autoridades suíças, e não ferir as pessoas. O Boeing 767 da Ethiopian transportava 202 passageiros e pousou com segurança no aeroporto de Genebra depois que o copiloto desviou o avião da rota de Adis Abeba para Roma, num momento em que o capitão foi ao banheiro. Nenhum passageiro ou tripulante se feriu.

O ministro da Informação etíope, Redwan Hussein, identificou o copiloto como Haile-Medhin Abera Tegegn, de 31 anos e que trabalha há 5 anos na empresa aérea.

O incidente é incomum, mas tem precedentes. Nove aviões de passageiros já foram sequestrados por pilotos procurando asilo, segundo a Aviation Safety Network (Rede de Segurança na Aviação), site que registra incidentes aéreos. Muitos deles eram voos cubanos desviados para os Estados Unidos.

Em três outros casos desde o fim dos anos 90, porém, os pilotos são suspeitos de terem causado deliberadamente a colisão de aviões de passageiros sem que as aeronaves tivessem problema técnico.

Os pilotos geralmente passam por um processo de seleção antes de serem contratados e são avaliados diversas vezes durante o trabalho. A frequência e profundidade variam de acordo com a companhia aérea e com o país. Após o sequestro, o ministro disse que o país não tinha planos imediatos para reexaminar a habilitação de pilotos ou outras normas da aviação. “Esse tipo de problema não é muito comum”, disse Hussein.

Investigadores divulgaram que o comandante de um voo regional da moçambicana LAM Mozambique Airlines que caiu na Namíbia, em novembro de 2013, matando todas as 33 pessoas a bordo, colocou o avião, um Embraer 190, num mergulho acentuado aparentemente de propósito e continuou ajustando controles com a intenção de causar um acidente.

Dados da caixa preta do avião indicaram, segundo investigadores, que o jato regional voou em direção ao solo a uma velocidade de cerca de 1.800 metros por minuto. O comandante não fez nenhuma chamada de emergência e ignorou vários alertas dos instrumentos sobre a colisão iminente.

Em dezembro de 1997, um Boeing 737 da Silkair, de Cingapura, vinha de Jacarta com 104 passageiros quando caiu na Indonésia.

Investigadores indonésios não conseguiram determinar a causa do acidente. Mas uma possibilidade sugerida pelo Conselho Nacional de Segurança nos Transportes dos EUA (NTSB, na sigla em inglês), que participou da investigação, foi que o capitão cometeu suicídio por estar enfrentando problemas financeiros e profissionais.

Quase dois anos depois, o voo 990 da egípcia EgyptAir, com 217 pessoas a bordo, caiu perto de Nantucket, no Estado americano de Massachusetts, pouco depois de decolar de Nova York com direção ao Cairo. O NTSB concluiu que a causa mais provável foi que um dos pilotos entrou com comandos que colocaram o avião num mergulho vertical. O NTSB disse que a razão para o piloto ter agido daquela maneira “não foi determinada”. Autoridades egípcias discordaram da análise americana.

Nesses três acidentes, só um piloto estava na cabine no momento em que o avião começou a cair.

Embora quedas de aviões comerciais causadas por pilotos sejam muito raras, outros funcionários de companhias aéreas também podem representar uma ameaça para os voos. A verificação de antecedentes e a avaliação de funcionários de terra, particularmente aqueles que não entram em contato direto com os aviões, são frequentemente menos completas que as realizadas para pilotos, dizem especialistas de segurança.

Um relatório de 2011 do Centro de Combate ao Terrorismo, da Academia Militar dos EUA, citou a “ameaça interna” como um perigo ainda presente na aviação. O relatório citou conspirações em Nova York, Jacarta e Reino Unido como exemplos de risco.

No caso britânico, em fevereiro de 2011 um tribunal do Reino Unido julgou Rajib Karim, um ex-engenheiro de software da British Airways, culpado de planejar atos terroristas e de usar seu trabalho para prepará-los. Promotores acusaram Karim, que hoje tem 35 anos, do que chamaram de uma “trama assustadora” para explodir um avião de passageiros. Eles disseram que, em mensagens criptografadas, ele se ofereceu para conseguir uma vaga numa tripulação e levar um “pacote” a bordo de um avião com destino aos EUA.

E há um ano, ladrões disfarçados de policiais e portando armas automáticas roubaram mais de US$ 50 milhões em diamantes do compartimento de bagagem de um avião prestes a deixar o aeroporto de Bruxelas. A cronologia e a precisão do roubo indicam que é quase certa a colaboração de pessoas familiarizadas com as operações do aeroporto, dizem pessoas a par das investigações.

Dezenas de pessoas foram presas em maio por ligação com o caso, mas promotores belgas não deram detalhes da investigação.

Em setembro, as autoridades francesas do Aeroporto Charles de Gaulle, perto de Paris, disseram que descobriram um carregamento de 1.383 quilos de cocaína, com um valor de cerca de US$ 270 milhões, num voo de Caracas. As autoridades francesas e venezuelanas prenderam mais de nove pessoas, incluindo três membros da Guarda Nacional da Venezuela, por envolvimento.

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