Notícias Varig – 147 – A lição amarga da Varig

O Globo
Sexta-feira 14.3.2014

PAULO RABELLO DE CASTRO

O Supremo Tribunal Federal bateu o martelo sobre a indenização bilionária que a União ficou obrigada a pagar aos credores da Varig, já que a empresa beneficiária, tal como a conhecíamos, não mais existe. Em valores atuais, a conta poderá passar dos R$ 7 bilhões. Há milhares de exfuncionários da empresa — aeronautas e aeroviários — que ficaram pendurados no fundo de pensão Aerus, o maior credor da empresa (com cerca de 52% do total do créditos originais). Nos últimos anos, os recursos do Aerus minguaram, pois são insuficientes para pagar aposentadorias e pensões devidas, justamente pelo fato de a empresa haver deixado de contribuir com sua parte aos diversos planos dos quais era patrocinadora inadimplente. Muitos desses formidáveis servidores da aviação brasileira já voaram para o céu, sem ver resgatados seus direitos previdenciários. A esperança ressurge para os ainda vivos, mas não é líquido e certo afirmar, como se tem dito, que eles verão a cor desse dinheiro, que tanto lhes tem faltado na terceira idade. Se não houver espírito de justiça, o próprio governo, enquanto Fisco, e outros credores mais “rápidos”, vão colocar a mão na indenização antes dos empregados da Varig.

O Brasil é um país essencialmente injusto. E age de modo dissimulado em sua maldade coletiva. Quando ainda havia tempo de dar a volta por cima, os funcionários da Varig se juntaram para assumir o controle da empresa. Foi no começo do processo de recuperação judicial. Os funcionários propuseram ao Juízo converter em capital novo da empresa os recursos deles no Aerus, mais os seus créditos laborais, além dessa indenização que agora será paga, com mais de 20 anos de demora. Tais recursos seriam mais do que suficientes para virar a mesa. Isso ficou comprovado no processo. Reunidos num fundo de participações, os representantes dos funcionários fizeram o lance vencedor de R$ 1,01 bilhão no leilão da empresa, para pagar os demais credores e tirar a Varig da recuperação judicial. Trariam como sócio minoritário — esse era o plano em curso — a mesma LAN que agora se tornou majoritária, vejam só, no capital da TAM, empresa que uma parte do governo da época fomentava como compradora potencial da Varig “para ensinar aos variguianos como gerir uma empresa aérea com eficiência”. Não era bem assim.

A Varig sempre foi a melhor, a escola de todos. Contudo, foi repudiada a solução economicamente ideal para o país, que traria maior segurança ao pecúlio dos funcionários, manutenção dos empregos úteis e, principalmente, qualidade para os milhões de brasileiros usuários dos seus serviços, estes também contribuintes, os que pagaremos agora a conta bilionária com nossos impostos. Essa boa oportunidade passou, sem o benefício de uma decisão judicial e de apoio político tempestivos, que faltaram na hora certa, ainda em 2005, quando a Varig começou a desaparecer. Cerca de 600 pilotos, os melhores do país, foram “exportados” para outros mercados. Perdemos a posição brasileira nos aeroportos do mundo. A Varig deixou de ser o top of mind do Brasil no exterior, levando nossa cultura de cordialidade e engenhosidade. Calculo o prejuízo completo do país, em termos de negócios e posições perdidas, além de danos materiais e morais a milhares de funcionários, num múltiplo dos R$ 3 bilhões ora adjudicados, algo na faixa de R$ 10 bilhões, que poderia ser hoje o preço justo de uma operação de empresa aérea saudável da nova Varig, tal como o fundo de investimento dos funcionários se propunha a criar, em cima da tradição construída pelo grande Ruben Berta.

Nossa capacidade de repudiar soluções solidárias e construtivas, em benefício de interesses, digamos, menores, não tem paralelo entre outras nações de nossa dimensão. Que sirva a lição amarga da Varig como meditação para todos nós, antes de cravarmos nosso voto nas eleições de outubro. Que tipo de estrela estaremos, afinal, dispostos a adotar como guia para o nosso Brasil?

Paulo Rabello de Castro é economista

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