Empresa aérea impõe toque de recolher a funcionarios

Folha de São Paulo
DOMINGO, 16 DE MARÇO DE 2014

Na Qatar Airways, comissários de bordo têm de chegar em casa até as 4h
Regra vale mesmo para os dias de folga; tripulante brasileiro foi demitido e deportado do Catar por ter HIV

RICARDO GALLO
DE SÃO PAULO

O anúncio de emprego seduz: possibilidade de jantar em Paris, almoço em Nova York, café da manhã em Montreal. Salário livre de impostos, moradia e transporte pagos –e a chance de viver no Oriente Médio como comissário de bordo em uma das empresas aéreas mais premiadas em todo o mundo, a Qatar Airways, do Catar.

É tudo verdade, mas não toda a verdade sobre a vida e o trabalho na Qatar, de acordo com tripulantes que, demitidos ou por vontade própria, voltaram ao Brasil nos últimos quatro anos.

A face pouco conhecida da empresa patrocinadora do time espanhol Barcelona inclui toque de recolher, com horário para chegar em casa mesmo no dia de folga; proibição de dormir fora quando se está em Doha; inspeções sem aviso nas moradias; e veto a visitas após as 22h.

Nos apartamentos, o controle se dá por câmeras e vigilantes 24 horas nos prédios onde vivem os comissários, na capital Doha. Para entrar, os funcionários usam cartões que registram os horários de entrada e saída –os prédios são separados para os homens e para as mulheres.

Quem quebra as normas é confrontado com imagens das câmeras. Aconteceu com Vinicius Barea, único a aceitar falar sem anonimato, que chegou 14 minutos atrasado, no seu dia de folga –às 3h44, em vez de 3h30, o horário limite na ocasião (hoje é às 4h).

DEMISSÃO

Ele estava com o namorado, que, por também estar de serviço no dia seguinte, infringiu outra regra: não ficou em casa 12 horas antes de um voo.

Ambos foram demitidos.

Para driblar a regra, há quem durma na casa de um conhecido e leve uma muda de roupa extra. Assim, chegam de manhã ao apartamento como se voltassem da academia, por exemplo.

O toque de recolher vale apenas para comissários de bordo; pilotos não precisam seguir essa obrigação –segundo a Qatar, eles são mais velhos e maduros.

Os funcionários dizem que nem sempre fica claro na contratação que as normas são rígidas –a Qatar nega.

Parte da rigidez se deve ao fato de o Catar, sede da Copa do Mundo de 2022, ser islâmico. O país nega vistos a portadores de HIV, proíbe consumo de álcool na maior parte dos lugares e de carne de porco, por exemplo.

DEPORTADO

Ainda em treinamento, Álvaro (os nomes são fictícios) foi levado ao escritório da empresa –havia algo errado com seu exame de sangue. De lá, sem receber qualquer explicação, foi para uma prisão reservada a deportados para tirar as digitais.

Mais tarde, soube que havia sido demitido e que teria de voltar ao Brasil no mesmo dia. Só descobriu a razão quando estava dentro do avião, informado por uma funcionária da Embaixada do Brasil em Doha: os exames constataram que ele era portador do vírus HIV –algo que ele disse já desconfiar.

“Foi uma coisa desumana. Fui para o aeroporto sem comer, sem tomar banho, só com a roupa do corpo. Tive a notícia do diagnóstico do HIV por telefone, sem psicólogo, sem ninguém para ajudar.”

Álvaro hoje trabalha em uma empresa brasileira, que sabe da sua condição.

Cláudio foi suspenso porque discutiu com uma chefe de cabine em um voo. Ele teve a conta bancária congelada. Ainda no Catar, dependeu de amigos para se manter. Quando a suspensão terminou, foi demitido.

“Voltei ao Brasil 20 quilos mais magro, em depressão.”

O congelamento da conta, dizem ex-funcionários da Qatar, é comum em casos de demissão. Quem sabe que vai sair da empresa saca o valor total da conta e passa a andar com dinheiro em espécie.

GRAVIDEZ

Gravidez e casamento são vetados na Qatar. Os recém-contratados se comprometem a não se casar por determinado período, nem engravidar.

Rosa não se incomodava com as normas da empresa, mas afirma ter saído porque queria se casar. Hoje, trabalha em uma companhia aérea brasileira. Outros ex-funcionários também não veem desvantagens. “É uma boa chance de viajar pelo mundo”, diz Valéria.

A Qatar tem atualmente 49 comissários brasileiros, dos quais 12 em treinamento. O salário varia entre R$ 6.000 e R$ 12 mil. A remuneração inicial é compatível com o valor pago no Brasil, mas há a isenção de taxas como vantagem.

Sindicatos para comissários são proibidos no Catar. O tratamento dado à categoria faz a ITF (Federação Internacional dos Trabalhadores em Transporte, na sigla em inglês) planejar levar o caso da Qatar à Organização Internacional do Trabalho. Em 2013, a ITF se queixou à Icao (Organização Internacional de Aviação Civil).OUTRO LADO

Companhia diz avisar antes sobre regras
‘Se ocorre algo com um funcionário no nosso país, nós somos os responsáveis’, diz vice-presidente da Qatar
DE SÃO PAULO

Os candidatos a comissários são informados sobre as regras da empresa antes da contratação, diz Rossen Dimitrov, vice-presidente de Experiência do Cliente da Qatar.

Isso vale para a determinação de chegar em casa às 4h e para a proibição de dormir fora, segundo a empresa.

É na segunda etapa de seleção que os candidatos conhecem as normas. “Pedimos a eles o retorno às 4h para ter certeza que assim estão seguros. Se ocorre algo com esse funcionário no país, nós somos responsáveis [no Catar, empregadores bancam o visto de seus funcionários]”.

Outra razão é manter os profissionais descansados e aptos a trabalhar em segurança. “Temos excelentes índices de segurança”, diz.

A norma vale só para comissários, não para pilotos. A empresa alega que os primeiros são mais jovens e menos maduros que pilotos. O vice-presidente contesta a classificação de “toque de recolher”. Afirma que se trata de um “período de descanso”.

De acordo com Dimitrov, a Qatar leva em consideração a performance de funcionários. Quem não atende ou desrespeita as normas pode ser dispensado.

No caso de Vinicius Barea, a demissão foi pela quebra do horário limite e por desrespeito ao descanso de 12 horas antes de um voo –norma de segurança da Qatar.

Sobre deportar funcionários com HIV, Dimitrov declarou ser uma regra de saúde do país. Já o congelamento de contas é feito pelo banco. O representante da Qatar afirma que a empresa é obrigada a comunicar ao banco se alguém vai deixar o país.

Sobre a gravidez, ele diz que o veto ocorre porque mulheres nessa condição são inapropriadas, sob o ponto de vista médico, para trabalhar. Gestantes podem atuar em terra –desde que sejam casadas, como manda a tradição no país.

Em relação ao casamento, Dimitrov diz que o veto está no contrato. Ele afirma ainda que a empresa é “profissional”, “disciplinadora” e “orgulhosa” dos seus comissários de bordo.

A Icao (órgão internacional de aviação) diz que questões sobre o tratamento da Qatar a funcionários devem ser levadas a órgãos de direito do trabalho, uma vez que o tema não é de sua atribuição.

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