UE fará exame rápido da aquisição da TAP

Valor Econômico
15/06/2015 às 05h00

Por Assis Moreira |n De Berna (Suíça)

Mário Vilalva, embaixador em Portugal: trâmites junto às autoridades regulatórias podem ser concluídos em um mês

Mário Vilalva, embaixador em Portugal: trâmites junto às autoridades regulatórias podem ser concluídos em um mês

O embaixador do Brasil em Portugal, Mário Vilalva, considera possível que em um mês estejam concluídos os trâmites junto a autoridades regulatórias para o consórcio Gateway – formado pela companhia brasileira Azul e o grupo português Barraqueiro – assumir o controle de 61% da TAP. A assinatura formal da operação poderá ser feita então até o fim do ano.

Ao Valor, o diplomata nota que o governo português e as empresas têm pressa. É que o contrato de compra prevê que a TAP, com a nova administração, já terá que demonstrar um certo desempenho até dezembro de 2015 para ocorrer a capitalização, plano de investimento, eventual encomenda de novos aparelhos e aquisição dos 34% restantes (5% das ações estão reservadas para os trabalhadores da companhia).

A aquisição tem que ser submetida à Comissão Europeia. Do ponto de vista europeu, o que importa é qual vai ser o peso relativo do investidor estrangeiro e, portanto, o poder de voto no conselho de administração, diz fonte em Bruxelas. E o controle ficará com o empresário português Humberto Pedrosa (do grupo de transporte rodoviário Barraqueiro) com 50,1%, enquanto o brasileiro David Neeleman, da Azul, deterá 49,9%.

Certos setores em Portugal acusam a operação de ‘controle simulado’, estimando que quem mandará mesmo é o dono da Azul. O embaixador Vilalva retruca que a TAP “continuará sendo uma empresa portuguesa, o principal responsável é um português e os dois sócios é que se entenderão sobre como gerir a companhia”. E diz que não é segredo que Neeleman, vindo do ramo aéreo, “vai ter papel relevante na gestão da nova TAP”.

O empresário português, que vai nomear a maioria dos administradores, já tomou decisão, avisando que os novos jatos Airbus 350, que estavam encomendados, vão ter de aguardar um pouco. O plano agora não é necessariamente receber aviões muito grandes, se concentrando mais em aviões menores inicialmente, como Airbus 319 ou 320.

Nesse cenário, o embaixador Vilalva estima que um dos aspectos que pode ter ajudado a vitória do consórcio Gateway foi o fato de a Azul usar aviões da Embraer. O construtor aeronáutico brasileiro é parceiro importante de Portugal, onde tem duas fábricas de produção de asas e empenagens, que são exportadas para o Brasil.

“Há uma perspectiva de que a nova TAP venha a comprar aviões da Embraer para voos próximos no mercado europeu, e isso beneficia Portugal, que poderá exportar mais e até incentivar novos investimentos da Embraer no país”, diz.

A expectativa brasileira é de que esse ‘circulo virtuoso’ resulte também num anúncio pelo governo português da compra de seis cargueiros KC-39o da Embraer. Portugal participa do projeto desse aparelho, com a fabricação de várias peças no país. “O anuncio português tem importância além do aspecto comercial, pois dará seu atestado a um projeto do qual participa”, disse o embaixador. A Força Aérea Brasileira vai comprar 29 unidades, assim como Republica Checa e Argentina, outros sócios, também poderão encomendar.

Envolvido há anos nas articulações para garantir uma brasileira na TAP, Vilalva aponta o “efeito multiplicador que virá da expansão das linhas da companhia”. Para ele, o aumento de destinações e melhora dos serviços, com aviões melhores e mais novos, vão incentivar o turismo e mais negócios entre o Brasil e Portugal, e por tabela do Brasil com Europa.

Conforme o diplomata, o governo português, desde o início, queria participação brasileira na privatização da TAP. Com a vitória da Azul, fica garantida a manutenção de um eixo de transporte que os dois governos consideram estratégico. A outra mais valia é a África, fechando um triângulo importante sendo atendido por uma companhia que mantém o português como língua de comunicação.

Portugal não estava propenso a aceitar vender a TAP a uma europeia por temer o risco de mudança do “hub” para fora do país e até de a TAP desaparecer. O “hub” em Lisboa está garantido por 30 anos.

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