Serviço extra ajuda aéreas a compensar demanda fraca

Valor Econômico
29/06/2015 às 05h00

Por João José Oliveira | De São Paulo

Lopes, da Gol: fatia dos extras na receita sobe de 8,4% para 11,1% em um ano

Lopes, da Gol: fatia dos extras na receita sobe de 8,4% para 11,1% em um ano

As companhias aéreas planejam aumentar as receitas auxiliares este ano para atenuar, ao menos parcialmente, a demanda fraca no país, que tem levado à redução do preço médio das passagens.

Apenas no primeiro trimestre deste ano, Gol e Latam (dona da TAM) faturaram R$ i,6 bilhão com itens como transporte de carga, venda de alimentos e bebidas a bordo, assentos especiais e remarcação de passagens.

Segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), as receitas auxiliares responderam por 14,5% dos R$ 31,2 bilhões que a aviação comercial brasileira faturou em 2013 (dados mais recentes disponíveis), ou R$ 4,5 bilhões. Estimativas de mercado apontam que TAM, Gol, Azul e Avianca alcançaram R$ 4,9 bilhões em receitas auxiliares em 2014 no país e devem tentar atingir R$ 5,5 bilhões este ano.

“As receitas auxiliares no setor podem chegar a 20% do faturamento total. Esse é o potencial para os próximos dez anos”, aponta o analista do Banco do Brasil Investimentos (BBI), Mário Bernardes Junior, especialista em transportes. “O que é um dado positivo porque gera caixa, tem baixos custos de implementação e reduz a exposição das empresas a variáveis como cambio e demanda fraca”.

O plano das brasileiras segue uma tendência mundial. Segundo a firma americana de pesquisa IdeaWorks, as companhias aéreas faturaram globalmente quase US$ 50 bilhões com receitas auxiliares em 2014, ou 17% mais que em 2013. Apenas nos Estados Unidos, esse nicho gerou mais de US$ 15 bilhões.

No caso do Brasil, a necessidade de as empresas ampliarem o segmento é mais urgente por causa da conjuntura. A agência de classificação de risco Fitch apontou, em relatório divulgado em maio, que o setor terá margens operacionais pressionadas este ano devido à demanda fraca, especialmente em viagens de negócios; depreciação do real ante o dólar; e baixa atividade econômica.

A Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) informou na semana passada que as tarifas médias este ano estão cerca de 20% abaixo das cobradas em 2014. No segmento corporativo, os descontos chegam a 40%, para atrair clientela. De janeiro a maio, a demanda no setor aéreo ainda acumula avanço de 4,17%, mas abaixo da alta de 5,4% registrada em igual período do ano passado. O desafio do setor, diz Eduardo Sanovicz, presidente da Abear, é fechar o ano sem retração.

Segundo a IdeaWorks, a principal fonte de receitas auxiliares no mundo são os programas de fidelidade, respondendo por 55% do segmento. Essa é uma das apostas do grupo Latam, que elevou em 42,8% as receitas extras, para R$ 279,3 milhões – excluindo cargas -, no primeiro trimestre deste ano, ante 2014. A maior contribuição veio do incremento, de R$ 70,9 milhões, das receitas da Multiplus, empresa de fidelidade da TAM.

Dados do Banco Central mostram que as transações com cartões de crédito “premium” – aqueles que geram mais pontos para os programas de fidelidade – cresceram 350% entre 2008 e 2014, ante avanço de 62% nas transações com cartões básicos. Quase 8o% dos pontos resgatados são transferidos para Multiplus, da TAM, e Smiles, da Gol.

No primeiro trimestre deste ano, a Gol obteve R$ 277,8 milhões em receitas auxiliares – incluindo cargas -, 33% mais que um ano antes. O destaque foi o crescimento da oferta do programa Gol+Conforto, assentos com mais espaço nas primeiras fileiras das aeronaves.

A empresa elevou de 8,4% a ii,i% o percentual das receitas auxiliares no faturamento trimestral. Esse é um instrumento para atenuar o impacto da fraca demanda corporativa na receita com passageiros, diz o vice-presidente financeiro e de relações com investidores da Gol, Edmar Lopes.

O consultor especialista em aviação da Bain & Company, André Casteilini, aponta que as aéreas brasileiras devem estar diversificando as fontes de receitas auxiliares, pois na década passada a taxa de remarcação de passagens era o principal item desse segmento.

No caso da Gol, a tecnologia vai contribuir para essa ampliação. A aérea anunciou este mês um programa que oferecerá internet em todos os voos a partir de 2016. Além de serviços gratuitos – como acesso a redes sociais e páginas de notícias, filmes e games – pacotes pagos estarão à disposição dos passageiros. “Fizemos projeções conservadoras de receita e mesmo assim esperamos ter uma fonte importante de faturamento extra”, afirmou o presidente da Gol, Paulo Kakinoff, durante o lançamento do projeto.

Hoje, em termos de volume, o setor de cargas ainda é a mais relevante fonte de receita auxiliar. “Qualquer carga transportada no porão do avião representa margem extra porque os custos são quase totalmente pagos pelos passageiros” aponta o diretor-geral da TAM Cargo, Luis Quintiliano, que projeta faturar com transporte de cargas este ano 5% mais que em 2014.

O desafio para o setor, diz Quintiliano, é incrementar o faturamento de cargas em tun ano cuja expectativa para o Produto Interno Bruto (PIB) é de retração de 1,5%. Dados da Anac mostram que a quantidade de toneladas pagas transportadas no mercado aéreo doméstico brasileiro está io% abaixo de 2014.

De fato, a carga transportada pela TAM (incluindo dados da controlada Absa) caiu de 71,2 mil toneladas em abril de 2014 para 56,6 mil toneladas em igual mês de 2015. A movimentação da Gol cedeu de 29,2 mil toneladas a 27 mil toneladas.

Mas a Avianca e a Azul conseguiram elevar o faturamento com transporte de cargas. A primeira colocou em operação mais um avião cargueiro, elevando de 7,3 mil toneladas a u,6 mil toneladas o volume transportado. E a Azul transformou uma de suas aeronaves ATR para dedicação exclusiva a cargas, além de contar agora com os aviões Airbus, elevando assim de 7,5 mil toneladas a 7,8 mil toneladas o volume embarcado em abril.

“Hoje, temos de 10% a 12% de nosso faturamento proporcionado pelas receitas auxiliares”, disse o presidente da Azul, Antonoaldo Neves, que também aponta avanços nas receitas auxiliares provenientes do programa de fidelidade e da agência de viagens. “A grande mudança na receita auxiliar é o Tudo Azul [programa de fidelidade]. Chegamos a 5 milhões de participantes, de 2,3 milhões em 2013.”

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