O que acontece com o nosso corpo no avião?


A pressão diferente e a baixa umidade são os principais responsáveis pelo desconforto na cabine (Lufthansa)

São meses de planejamento. Escolher o destino para o qual vai viajar, a compra da passagem aérea, a escolha do hotel e dos passeios que serão feitos. Enfim, férias! Talvez esse seja o momento mais aguardado do ano em que sozinhos, com amigos ou com a família, as pessoas irão desfrutar do merecido descanso. Depois de tudo definido, dias antes é chegada a hora de preparar as malas. Bem, e que tal também incluir nesta lista de tarefas os preparativos para o voo?

Em viagens mais longas de avião, a pressurização e a baixa umidade no ar da cabine são os vilões que podem causar muitos incômodos, como ressecamento da pele, boca, olhos, garganta e nariz; criar gases, causar inchaços nas mãos, pernas e pés; mudar o sabor de um alimento e, até, despertar uma dor de ouvido ou uma impensável dor de dente.

Em média, uma cabine de passageiros possui umidade relativa de apenas 10%, o dobro se comparado ao deserto do Atacama e a mesma de Brasília (DF). Normalmente o índice começa a ser considerado crítico quando fica abaixo dos 30%. Em aviões mais modernos, esses valores variam de 15% a 20% – ainda que seja baixo, já representa um grande avanço.

Já a pressurização média dos aviões é mantida em torno daquela existente a 2.438 metros e isso afeta você no voo tanto no sabor dos alimentos e bebidas quanto nos inchaços, gases e dores. Mas fique calmo. Nada disso vai transformar o seu passeio num pesadelo!

Entenda a seguir o que acontece com nosso corpo durante uma longa viagem de avião e a melhor forma de torná-la mais confortável:

Medo de voar

Em geral, são dois os medos que afetam parte das pessoas que voam: a claustrofobia e o receio de um acidente fatal. Geralmente esses passageiros ficam muito tensos, fechas as janelas e sofrem com o primeiro barulhos ou sinal que escutam. Esse sofrimento, aliás, começa dias antes da viagem, com alta carga de estresse e ansiedade. Existem psicólogos especializados no tratamento do medo de voar, com terapias específicas para esses casos e que oferecem resultados práticos e eficientes.

Comida ruim

O café parece estar morno? A comida sem gosto? Não é culpa da companhia aérea ou dos comissários. Estudos indicam que perdemos em torno de 30% da percepção dos sabores dos alimentos, notadamente o doce e o salgado, durante o voo. Isso acontece porque a pressurização amortece as papilas gustativas da língua, reduzindo sua eficiência. Curiosamente, os sabores amargos, picantes e azedos não são influenciados.

No caso do café ou do chá, o ponto de ebulição da água vai ficar em torno de 76°C, muito abaixo dos tradicionais 100°C que estamos acostumados em terra firme. Assim, o sabor vai ser muito prejudicado e a temperatura também, para aqueles que preferem bebidas bem quentes.

O sabor da comida pode mudar bastante no avião, mas isso não significa que ela é ruim (Alitalia)

E falando em paladares, o olfato é um grande responsável na percepção de 80% daquilo que achamos que é sabor. A baixa umidade do ar seca a região do sistema olfativo chamada nasofaringe, que não consegue captar o cheiro dos alimentos. O mesmo acontece quando estamos gripados ou resfriados, momento em que os alimentos perdem o seu sabor. A solução é se hidratar.

Existe ainda mais um ponto que incomoda os passageiros: em voo, não escutamos nossa comida sendo mastigada na boca, o que faz perder um pouco da graça daquela refeição. O problema nesse caso, é o ambiente barulhento da cabine.

Ouvido entupido

A pressurização ataca os ouvidos e pode causar, além de dor, a vertigem e enjoos. Quanto maior a altitude, menor a pressão. Num voo, normalmente, a altitude interna da cabine de passageiros é mantida em 2.438 m, quase o dobro da altitude de quem vai curtir o frio em Campos do Jordão (SP).

A mudança rápida de pressão faz com que as tubas auditivas, que ligam os ouvidos à garganta e ao nariz, não consigam equalizar essa diferença, ocasionando as dores.

A pressão diferente da cabine pode causar dor nos ouvidos, que também pode influenciar em vertigens e enjoos

Mascar chicletes ajuda a forçar ar para fora das tubas, amenizando a dor. Se você sem goma de marcar, tampe o nariz com as mãos, feche a boca, e force o ar, fazendo com que ele siga em direção ao ouvido. Mais uma vez, a água também colabora para diminuir os incômodos.

Circulação

A mobilidade reduzida, somada à desidratação e a baixa pressão, também pode acarretar um problema muito sério – a trombose venosa profunda. Na prática, trata-se de coágulos que se formam em uma ou mais veias. A situação pode se agravar caso esse coágulo se desprenda, acarretando numa embolia pulmonar, que é a obstrução de canais e vasos do pulmão.

Caminhadas pela aeronave melhoram a circulação, enquanto a ingestão de muita água afina o sangue e diminui o risco da formação de coágulos.

Extremidades

Mãos e pernas inchadas são resultados de um voo de maior duração. Em alguns casos, mal dá para calçar os sapatos após a viagem. Isso porque, aliada a baixa pressão, ficamos sentados e confinados em assentos muito apertados durante quase todo o voo. É indicado que façamos alongamentos nos braços, pernas e movimentos circulares com os pés e mãos.

Intestino

A menor pressão interna faz com que o ar no intestino se expanda, ocasionando gases e dores de barriga. O indicado é não ingerir bebidas gaseificadas. Frituras e lanches podem contribuir negativamente, sendo indicado não consumir esse tipo de alimento antes e durante o voo.

Boca, olhos, nariz e pele

A baixa umidade gera grande incômodo, pois rapidamente faz ressecar as mucosas da garganta e nariz. Afinal, num voo de longa duração, superior a 8 horas, é possível desidratar em torno de 1 a 1,5 litro. As mucosas garantem proteção contra microrganismos e tem fundamental importância em nosso sistema imunológico. Assim, o seu ressecamento pode facilitar o surgimento de doenças. Nesse caso, dois copos de água por hora são suficientes para uma reidratação adequada.

A pressurização da cabine do avião pode causar até dor de dente

Se você estiver com alguma cárie nos dentes, a pressurização pode contribuir numa indesejável dor, ao expandir uma área já afetada ou infeccionada. Mais um detalhe: com a boca seca, as bactérias se proliferam em maior quantidade, causando mau hálito. Se você tomou refrigerante ou comeu em fast-foods, que possuem maior concentração de açúcar em sua composição, esse problema pode ser acentuado, já que certas bactérias se alimentam de açúcar e assim se proliferam mais rapidamente.

Os olhos também sofrem, pois secam e ficam vermelhos. Os colírios são grandes aliados para os olhos. Para aqueles que usam lentes de contato, é melhor deixá-las de lado e optar pelos óculos. Já a pele, ao ficar ressecada, pode apresentar coceiras. Nesse caso, a melhor sugestão é levar um creme hidratante e beber muita água durante o voo.

Nota do editor: Agradecemos ao médico aeroespacial da Latam Airlines Brasil, Doutor Rafael Carvalho Rodrigues, pelo apoio na realização deste artigo.

*Reportagem publicada originalmente na edição 95 da Revista Asas, parceira do Airway.

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