Como a Boeing vai ajudar a Gol a lucrar

Valor Econômico
07/04/2014 às 05h00

Por João José Oliveira | De Seattle (EUA)

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Fábrica dos aviões 737 da Boeing, em Seattle, vai ampliar ritmo de produção
para atender maior demanda global

O capítulo decisivo para a virada no desempenho da Gol depende de uma variável que está a 11 mil quilômetros de distância da sede da companhia aérea, em São Paulo. Se tudo o que foi desenhado pelos engenheiros da Boeing, maior fabricante mundial de aeronaves, for confirmado no dia a dia de decolagens e pousos, a empresa brasileira vai fechar 2014 com lucro na última linha do balanço.

Por trás dessa aposta está o novo modelo 737 – avião mais vendido na história, com mais de 10 mil unidades comercializadas -, que forma a frota da Gol. No fim de semana, a aérea trouxe de Seattle o sexto 737 Next Generation entregue pela Boeing. Mais dois chegam em junho. E outros 60 aviões 737 Max 8, próxima geração do modelo, a Gol passa a receber em 2017.

O modelo sai de fábrica prometendo ser até 14% mais econômico em consumo de combustível que o anterior. É o sexto avião que a Gol recebe da segunda geração de um conjunto de tecnologias chamado de SFP (Short Field Performance). Uma aeronave capaz de usar pistas curtas, como as do aeroporto Santos Dumont, no Rio, a menor em que atuam os modelos da Boeing, com apenas 1,4 quilômetro.

Entre as mudanças feitas pela Boeing no 737 – em parceria com a Gol – está a troca de freios de aço por outros de carbono, retirando de cada avião mais de 300 quilos de peso. “Por isso, esse avião pode transportar até 20% mais [pessoas ou carga]”, diz Ed Clark, vice-presidente de engenharia de aviões comerciais da Boeing.

Em 2013, não fosse pelo dólar 11% mais caro e pela alta de 7% do querosene da aviação, a Gol teria tido lucro líquido de R$ 71 milhões em vez de um prejuízo de R$ 743 milhões. Mas, consumindo 14% menos combustível e podendo carregar até 20% mais pessoas, o 737 NG pode virar o balanço da Gol, dizem analistas. Por enquanto, a companhia promete ter um lucro operacional – ganho antes de juros e impostos – equivalente a até 6% da receita líquida.

Os analistas que acompanham a Gol lembram que a frota não será trocada inteiramente em um ano. Mas Clark, da Boeing, diz que a empresa está acompanhando a aérea no aperfeiçoamento da frota atual. Os freios, por exemplo, serão trocados, proporcionando economia pelo menor peso a carregar e pela maior eficiência na frenagem.

Mas não são só os analistas de mercado que seguem o desenrolar da reestruturação da Gol. A Boeing também monitora a trajetória da aérea brasileira de perto.

A Gol é uma das cinco maiores clientes no mundo da Boeing para a aeronave 737. O modelo é o mais vendido da fabricante americana – 7 em cada 10 unidades comercializadas são dessa família. “Definitivamente, a Gol é um parceiro chave para a Boeing”, diz Jim Proulx, responsável pela comunicação internacional na área de aviões comerciais da fabricante. A Gol responde por quase toda a encomenda da Boeing no mercado brasileiro, que registrou o terceiro maior crescimento da demanda mundial em fevereiro, segundo a Associação Internacional do Transporte Aéreo (Iata).

A Boeing assistia com angústia ao mergulho financeiro que a Gol sofreu após 2011, acumulando quase R$ 3 bilhões em perdas nos balanços dos últimos três anos. O monitoramento dos dados é necessário para antecipar qualquer risco de desistência de encomendas. Nesse contexto, ecoou positivamente nos corredores da Boeing a afirmação do presidente da Gol, Paulo Kakinoff, de que a aérea dobrou em um ano o caixa, para R$ 3 bilhões, e que o grau de alavancagem – endividamento em relação à receita bruta – caiu de um múltiplo de 37 para menos de 6 vezes.

Na cerimônia de adesão da Boeing à Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), em março, a presidente da Boeing no Brasil, Donna Hrinak, afirmou que o fortalecimento da Gol é determinante para que a fabricante americana consolide a posição de líder na América Latina.

É verdade que a Gol precisa mais da Boeing que o inverso; mas a vice-líder brasileira no transporte doméstico de passageiros não deixa de ser relevante para a Boeing.

O repórter viajou a convite da Boeing

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