Em pesquisa, pilotos afirmam já ter cochilado a bordo sem querer

Folha de São Paulo
07/07/2014

Possível razão são turnos alternados de trabalho, que incluem jornadas seguidas de madrugada
Estudo com 1.122 profissionais foi feito para associação de pilotos, que propõe mudança na lei 

RICARDO GALLO DE SÃO PAULO

Uma pesquisa com pilotos de companhias aéreas brasileiras aponta que 57% dos profissionais entrevistados disseram ter cochilado, sem intenção, enquanto estavam na cabine de comando.

A causa possivelmente são os turnos de trabalho, que incluem madrugadas seguidas.

O levantamento, feito por uma pesquisadora a pedido da Abrapac (Associação Brasileira de Pilotos da Aviação Civil), ouviu 1.122 pilotos de voos domésticos entre dezembro de 2013 e março.

Foi a primeira vez que a fadiga da tripulação e a sonolência foram tratadas no Brasil com essa abrangência. Há 5.966 pilotos de linha aérea no país, diz a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil).

As empresas aéreas não contestaram a pesquisa.

Dormir a bordo involuntariamente constitui infração na maioria das empresas. Consultadas, TAM, Gol, Azul e Avianca não informaram se já puniram alguém por isso.

Pior: o cochilo representa risco à segurança, uma vez que a atividade dos pilotos dentro da cabine, como monitorar as condições do avião e falar com o controle de tráfego aéreo, exige atenção constante.

Demonstra, também, exaustão dos pilotos, incapazes de se manter acordados.

Em voos domésticos, são dois tripulantes na cabine, o comandante e o copiloto; se um dorme, aumenta a carga de trabalho do outro.

NÃO INTENCIONAL 

Uma das responsáveis pela pesquisa, Elaine Marqueze, doutora pela USP, diz que os pilotos possivelmente cochilam porque acordam para trabalhar –ou já estão em serviço– no melhor horário para dormir: entre as 3h e as 4h.

Nessa hora, a temperatura corporal está baixa e os níveis de melatonina (hormônio do sono) elevados.

Ela já estudou o sono dos caminhoneiros e apresentará o estudo com os pilotos no Congresso Brasileiro de Epidemiologia, em setembro.

Na pesquisa, os pilotos disseram trabalhar em média quatro madrugadas seguidas.

Com o Sindicato Nacional dos Aeronautas, a Abrapac defende projeto de lei, em andamento no Senado, que limita o trabalho dos pilotos a duas madrugadas consecutivas. O texto foi aprovado na comissão de assuntos sociais em junho, mas pode receber ajustes.

No mundo, não é totalmente proibido que um piloto cochile a bordo –de modo intencional e planejado, diferentemente do que concluiu o estudo brasileiro.

A depender da situação, a soneca chega a ser estimulada, para melhorar a atenção.

Maior autoridade mundial no setor, a Oaci (Organização de Aviação Civil Internacional, ligada à ONU) prevê o “descanso controlado”, um cochilo por até 40 minutos, como maneira de atenuar o risco de fadiga dos pilotos.

Esse é o tempo que um ser humano pode descansar sem cair no sono profundo, segundo pesquisa feita nos anos 1990 pela Nasa (agência espacial americana). O cochilo proposital é capaz de deixar os pilotos mais alertas.

A regra da Oaci prevê que um dos pilotos fique acordado para o outro dormir e que o avião esteja em piloto automático e etapa de cruzeiro.

Como é comum na aviação, a norma foi resposta a acidentes em que o cansaço de pilotos foi fator contribuinte. Em maio de 2010, por exemplo, um Boeing 737-800 da Air India caiu ao tentar pousar.

A apuração concluiu que o comandante dormiu durante o voo e que a desorientação o fez errar. O acidente resultou em 158 mortos.

As autoridades de aviação civil da Europa, dos Emirados Árabes e do Canadá, entre outras, preveem o sono controlado. A norma também é endossada pela Iata (associação que reúne a maioria das empresas aéreas no mundo). O Brasil ainda não tem legislação a respeito.

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