Estagnação econômica reduz transporte aéreo de cargas

Valor Econômico
27/10/2014 às 05h00

Por João José Oliveira | De São Paulo

Matsuguma, da TAM Cargo, que investe R$ 56 milhões: "Queremos estar preparados para quando o crescimento voltar"

Matsuguma, da TAM Cargo, que investe R$ 56 milhões: “Queremos estar preparados para quando o crescimento voltar”

O transporte aéreo de cargas no mercado brasileiro este ano vai ter retração, dizem executivos das maiores companhias de aviação que operam no Brasil. Segundo eles, a estagnação do Produto Interno Bruto (PIB) recente e a incerteza com relação à política econômica que será a dotada pelo próximo governo, após as eleições presidenciais, reduziram a demanda por insumos e matérias-primas, na indústria, e afetaram a demanda dos consumidores por produtos adquiridos pelo comércio eletrônico.

Segundo a Anac, o volume de carga transportado entre janeiro e agosto deste ano está 2,5% abaixo do total apurado em igual período de 2013. Nessa mesma base de comparação, a quantidade de toneladas que viajou de avião no planeta cresceu 4,5%, conforme estatísticas compiladas pela Associação Internacional do Transporte Aéreo (Iata).

“O transporte de cargas está diretamente ligado ao PIB”, disse o diretor executivo da TAM Cargo, Dario Matsuguma, que responde pelas operações de carga da TAM e da Absa – que juntas representam 58,2% das toneladas transportadas por via

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), o PIB brasileiro acumula dois trimestres seguidos de retração – queda de 0,2% entre janeiro e março, e de 0,6% entre abril e junho -, o que é tecnicamente classificado pelos economistas como recessão.

Economistas consultados pelo Banco Central por meio do boletim semanal Focus projetam um crescimento do PIB para este ano de apenas 0,27%.

“As empresas estão apertando custos”, afirma o diretor de cargas da Gol, Eduardo Calderon. “A gente vê inclusive alguma migração da carga para o [modal] rodoviário”, diz. Segundo ele, o cenário eleitoral indefinido também afetou a demanda.

A Gollog, que responde por 21,7% da carga movimentada por via aérea no país, projeta transportar 80 milhões de toneladas em 2014. Até agosto, o volume estava em 54,9 milhões de toneladas. Toda a carga é transportada nos porões dos aviões de passageiros, uma vez que a companhia não tem cargueiros na frota.

Apesar das incertezas sobre 2015, Calderon e executivos das outras companhias aéreas traçam um horizonte mais promissor. E decidiram investir para capturar a demanda quando a economia recuperar o fôlego. “Estamos investindo em armazenagem, na operação e tecnologia”, disse o diretor da Gol, que transporta cargas para 79 destinos internacionais, além das 3 mil localidades no Brasil.

Na semana passada, a Gol abriu mais uma unidade para receber cargas e encomendas, a 104ª da companhia no país, em Americana (SP). “E essa semana vou aos Estados Unidos, conversar com a Delta. Queremos aproveitar os acordos de interline e code share [compartilhamento de voos] com as estrangeiras para aumentar nossa atuação”, afirmou Calderon.

A líder do setor, a TAM Cargo, está investindo R$ 56 milhões neste biênio 2014/2015 em infraestrutura e tecnologia para aumentar a eficiência operacional e atrair clientes de companhias concorrentes. “Queremos estar preparados para quando a demanda voltar a crescer”, disse Matsuguma.

Dos aportes, R$ 44 milhões estão sendo usados na construção de novos terminais de carga, em Manaus, Goiânia, Natal e Guarulhos (SP). Outras 30 unidades estão sendo reformadas, adequadas e ampliadas, cobrindo quase toda a rede de 49 destinos atendidos pela frota usada nesse negócio.

Outros R$ 11 milhões seguem para sistemas operacionais, como o que permite monitoramento em tempo de toda carga transportada. “Nossa operação é importante porque permite ao grupo aumentar a rentabilidade dos voos”, disse Matsuguma.

A TAM Cargo transporta cerca de 79% das encomendas nos porões dos 179 aviões de passageiros da TAM e 21% nos quatro cargueiros. “Nossa operação é importante porque permite ao grupo aumentar a rentabilidade dos voos”, disse o executivo.

O transporte de cargas como forma de aumentar a rentabilidade do balanço consolidado da companhia é também a meta da Azul, dona de 15,95% das toneladas que viajam de avião no país – percentual 60% maior que o de um ano atrás.

A companhia criou este ano uma diretoria específica para o setor de cargas. Segundo o novo diretor, Claudio Fonseca, a chegada das aeronaves Airbus 330-200 vai ampliar as oportunidades para o transporte de cargas paletizadas de maior peso e volume nos mercados doméstico e internacional.

Antes de encomendar 12 aviões Airbus, a Azul tinha uma frota composta por Embraer e ATR, aeronaves menores, que limitam o transporte de itens mais volumosos. Tanto que no período de maior demanda por cargas, a empresa pegou uma aeronave ATR 72 dedicada a essas operações. “À medida que a companhia cresce em número de destinos e tamanho de frota, a Azul Cargo acompanha e também expande suas operações”, afirma Fonseca.

Segundo projeções da Iata, o transporte aéreo de cargas na América do Sul vai crescer a um ritmo anual de 3,9% até 2018. Esse avanço será um pouco menos acelerado do que a média mundial, que será de 4,1%. A expansão desse segmento vai ser liderada pelas rotas ligando o Oriente Médio e Ásia, com expansão anual estimada em 6,2%.

Matsuguma, da TAM Cargo, diz que investimentos em infraestrutura e processos podem melhorar a eficiência do transporte aéreo de cargas no país e possibilitar uma expansão maior. Segundo ele, no aeroporto de Santiago, uma carga leva cinco horas, em média, para ser liberada após o desembarque. No Brasil, esse tempo é de 72 horas.

O executivo que atua no setor de logística há mais de 30 anos conta que enquanto nos Estados Unidos, 0,3% da carga doméstica é transportada por via aérea, no Brasil a participação do modal é de apenas 0,05% dos volumes.

Por outro lado, enquanto o modal rodoviário responde por 65,6% da carga transportada dentro do Brasil, nos Estados Unidos os caminhões representam 28,7% da logística de matérias-primas, insumos e produtos que atravessam o território.

“O que deixamos de atender aqui por ineficiência migra para outros países”, disse Matsuguma.

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