Fora da cabine

O Globo
26 mar 2015

Gravação mostra um dos pilotos batendo na porta sem resposta antes da queda, diz ‘New York Times’
KARINA HERMESINDO
karina.hermesindo@oglobo.com.br

Um dos pilotos do Airbus A320 — que caiu anteontem nos Alpes franceses matando as 150 pessoas a bordo — não estava na cabine na hora do acidente. A afirmação é do jornal “New York Times”, citando como fonte uns dos investigadores responsáveis pelo caso, que teria ouvido o áudio da primeira caixa-preta encontrada.

Missão difícil. Equipes de resgate vasculham destroços de avião em encosta: da segunda caixa preta, apenas uma carcaça vazia foi encontrada por enquanto nas buscas

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— O piloto do lado de fora bate na porta e ninguém responde — disse a fonte. — Ele bate mais forte e nada de resposta. Nunca há uma resposta. Você pode ouvir ele tentando derrubar a porta.

A publicação diz que não é possível saber o que aconteceu, apenas que o voo começou tranquilo, com os dois pilotos conversando, e terminou com um deles tentando esmurrar a porta da cabine do lado de fora.

— Não sabemos a razão pela qual um dos caras saiu da cabine. Mas o que está certo é que no fim do voo, o outro piloto está sozinho e não abre a porta.

CONTATOS SEM RESPOSTA
Oficialmente, o diretor Rémi Jouty, do Escritório de Investigações e Análises em acidentes aéreos (BEA, na sigla em francês), responsável pelas investigações, disse à imprensa que a caixa-preta poderia ser decifrada, mas que isso levaria “dias e até meses” devido a danos causados pela queda. Ele também não descartou nenhuma hipótese para o acidente, apenas afirmou que o avião não tinha explodido no ar.

— O avião voou até o fim. Os destroços não tem características de uma explosão em pleno voo — explicou Jouty.

Ontem, o presidente francês, François Hollande, a chanceler federal alemã, Angela Merkel, e o presidente de governo da Espanha, Mariano Rajoy, estiveram no local do acidente. Na ocasião, Hollande anunciou que a carcaça da segunda caixa-preta, a que armazena dados do voo, teria sido localizada entre os destroços — no entanto, estava vazia.
Os mandatários prestaram homenagem às vítimas mas evitaram falar das causas da queda do avião.

— Angela, Mariano, estejam seguros que tudo será esclarecido. Devemos isso às famílias das vítimas — disse Hollande.

Em entrevista ao GLOBO, o presidente do Comitê de Segurança Aérea francês, Gérard Arnoux, relatou que os oito minutos que o avião levou para cair causam estranheza. E é taxativo ao afirmar:

— Isso só pode significar que a tripulação estava inconsciente, provavelmente foi intoxicada — disse Arnoux, que conhece bem o Airbus A320 já que, por 18 anos, pilotou aviões deste modelo na companhia Air France. — Nada pode ser descartado como hipótese, mas acho que o mais provável é um problema técnico e perda de consciência da tripulação — disse Arnoux.

O voo da companhia Germanwings, subsidiária de baixo custo da alemã Lufthansa, saiu anteontem às 10h01 de Barcelona com destino à Dusseldorf, na Alemanha, onde deveria ter aterrissado às 11h55. Tudo ia bem até que, às 10h31, o avião começou a perder titleitude, caindo cerca de mil metros por minuto. Como já estava no espaço aéreo francês, a torre de controle da região de Provença tentou contato às 10h31m, às 10h35m e às 10h36m, mas não obteve resposta. O avião caiu perto do município de Méolans-Revel, nos Alpes franceses, às 10h47. Nenhum alerta de emergência foi emitido.

De acordo com Arnoux é possível que a descida tenha sido feito pelo piloto automático, por isso nenhuma resposta foi dada à torre de controle. Quanto à suposta intoxicação, ela pode ter acontecido por uma despressurização brutal da cabine, por exemplo.
Carsten Spohr, presidente da Lufthansa, rebateu as criticas da imprensa de uma possível falha mecânica, já que na véspera da queda, o avião passou por uma reparação no trem de pouso.

— Era um conserto de rotina. Voava em perfeitas condições. É inexplicável semelhante acidente com um avião sem problemas técnicos e com um piloto experiente e treinado pela Lufthansa — afirmou Spohr.

O resgate dos corpos começou ontem, mas a operação é extremamente delicada, devido a região de difícil acesso, em uma zona íngreme, a 1.500 metros de titleitude, nos Alpes franceses.

— Tudo está pulverizado. A gente não consegue nem distinguir um avião — disse o tenente Eric Sapet, do grupo montanhista dos bombeiros de Alpes-Maritimes.

PREOCUPAÇÃO COM LOBOS
De acordo com militares que estão ajudando nas buscas, há apenas uma meia dúzia de grandes destroços, e a única coisa que pode ser identificada é um trem de pouso. A situação dos corpos não seria diferente. Eles estariam irreconhecíveis. Os restos da aeronave e as vítimas estão espalhados em uma superfície de quatro mil hectares. Uma equipe de mais de 600 pessoas, entre bombeiros, militares e 12 médicos legistas, estão participando dos resgates, incluindo quatro especialistas da Interpol em identificação de restos mortais. O pedido partiu das autoridades francesas que pretendem entregar os corpos aos familiares o mais rápido possível.

A mídia europeia especulou ontem que a região onde caiu o Airbus tem muitos lobos e que militares franceses estariam vigiando à noite o local para impedir que eles se aproximem dos corpos. Em entrevista à rede FranceTV Info, Yannick Léonard, responsável pelo monitoramento de animais selvagens na região, disse que é improvável que isso ocorra.

— Com a quantidade de gente no local e helicópteros, os animais vão ficar bem distantes — disse Léonard.

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