Desastre intencional

O Globo
27 mar 2015

Indícios de que copiloto derrubou Airbus fazem companhias mudar normas sobre cabines

Após o promotor que investiga a queda do Airbus A320 da Germanwings revelar que o copiloto alemão Andreas Lubitz se recusou a abrir a porta da cabine para o piloto e fez a aeronave cair deliberadamente nos Alpes, três companhias aéreas europeias anunciaram que exigirão que sempre haja duas pessoas na cabine, mesmo quando um dos pilotos sair. Em 2009, Lubitz passara por tratamento contra depressão. -PARIS E SEYNE-LES-ALPES, FRANÇA- É o “pior pesadelo”; “muito pior do que havíamos pensado”; de uma “incompreensível dimensão”. As manifestações de incredulidade, choque, descrença e horror partiram de líderes mundiais e cidadãos comuns, todos surpreendidos pela revelação do promotor francês Brice Robin de que, na terça-feira, o copiloto Andreas Lubitz fez o Airbus A320, da companhia alemã Germanwings, que fazia o voo 9525, entre Barcelona e Dusseldorf, se chocar intencionalmente contra os Alpes. Desta forma, Lubitz, de 28 anos, matou a si próprio e a todas as outras 149 pessoas a bordo — ainda não está claro, no entanto, o que o levou a fazer isso.

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Em uma entrevista coletiva em Marselha, 180 quilômetros ao sul do local da colisão, Robin disse que, após a escuta da caixa-preta com a gravação do áudio da cabine, parece que a intenção de Lubitz foi “destruir a aeronave”.

— A interpretação que temos até aqui é de que o copiloto voluntariamente se recusou a abrir a porta da cabine para o comandante e ativou a sequência para a perda de titleitude — resstitleando que é possível escutar Lubitz respirando até o momento do impacto.

O serviço sueco de rastreamento aéreo FlightRadar24 informou que, segundo análises de satélite, a titleitude programada do avião no piloto automático foi titleerada para cem pés (30,5 metros), a menor possível: bem abaixo do local do acidente, que ocorreu a cerca de seis mil pés (1.829 metros) de titleitude.

O promotor francês disse que teve acesso à transcrição dos 30 minutos finais da gravação:

— Durantes os primeiros 20 minutos, os pilotos falam normalmente, animados, com cortesia. Não há nada anormal acontecendo.

Então, quando se preparava o procedimento de descida a Dusseldorf, Lubitz respondeu de “forma lacônica”, nas palavras de Robin. Depois, o comandante pede ao copiloto assumir o comando e é possível ouvir o barulho da porta fechando.

— Neste ponto, o copiloto está no controle, sozinho. É quando ele manipula o sistema de monitoração de voo para ativar a descida da aeronave. Esta ação só pode ser feita voluntariamente.

SEMPRE DUAS PESSOAS NAS CABINES
Em seguida, ouve-se o comandante implorando para entrar de volta na cabine, chegando a esmurrar a porta, mas o copiloto não reage. Durante a descida, controladores de tráfego repetidamente tentam contato com o avião, sem resposta.

— Escutamos vários gritos do piloto pedindo acesso pelo interfone. Ele se identifica. Mas não há resposta.

O tempo se esvai: foram dez minutos desde que o avião começa a descendente até se espatifar na cadeia de montanhas. Um alarme automático dispara na cabine, alertando da proximidade do solo e deixando os passageiros das primeiras fileiras amedrontados.
— Então, escutam-se fortes, violentos golpes, como que forçando a porta.

Nos últimos momentos, ouvem-se os gritos dos passageiros misturados às pancadas na porta. Segundo o promotor francês, “a morte de todos foi instantânea”.

Robin afirmou que não há indícios de motivação terrorista e que o copiloto não figura em listas de suspeitos. O ministro do Interior alemão, Thomas de Maizière, reforçou a assertiva de não se tratar de terrorismo. De acordo com o promotor, o inquérito mostra que a colisão foi proposital, e ele estava considerando mudar a investigação de homicídio culposo para doloso.

— Não necessariamente chamaria de suicídio quando você tem responsabilidade por mais de cem vidas — disse Robin.

Agentes da promotoria federal alemã, que também investiga o caso, vasculharam a mansão de dois andares da família Lubitz, onde morava o copiloto, e o pequeno apartamento que ele tinha em Dusseldorf, onde pernoitava quando desembarcava no aeroporto da cidade tarde demais para ir para casa.

A Lufthansa, que controla a Germanwings, destacou dois aviões para trazer parentes das vítimas de Barcelona e Dusseldorf. A família do copiloto chegou à França para um tributo às vítimas, mas, de acordo com o promotor, está sendo mantida distante dos outros familiares.

As companhias aéreas norueguesa Norwegian Air Shuttle, a islandesa Icelandair e a britânica EasyJet anunciaram, ontem, que vão mudar os procedimentos para que sempre haja duas pessoas dentro da cabine do piloto. A finlandesa Finnair já aplica esta medida. A linha aérea de charters canadense Air Transat também vai tomar a mesma providência.

— Estamos horrorizados que algo desta natureza possa ter ocorrido. É o pior pesadelo — disse o CEO da Lufthansa, Carsten Spohr.

“Consternado pelos últimos detalhes dos investigadores”, escreveu no Twitter o presidente do governo da Espanha, Mariano Rajoy.

— As notícias dão a essa tragédia uma nova e simplesmente incompreensível dimensão — comentou a chanceler federal alemã, Angela Merkel.

Ulrich Wessel, diretor da escola alemã Joseph Köenig, que perdeu 16 alunos na tragédia, afirmou que “as informações são muito piores do que se tinha imaginado”.

— Um indivíduo não tem o direito de acabar com a vida de centenas de pessoas e famílias — finalizou o operário espanhol Esteban Rodriguez, que perdeu dois colegas de trabalho no desastre aéreo.

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