Notícias Vasp – 557 – Sucatas que voam

Zero Hora
01 de junho de 2015

MOISÉS MENDES

Fui passageiro de um dos últimos voos da Vasp antes da quebra total. Cheguei meio atrasado ao balcão de check-in e me colocaram numa fila de espera. Naquela época, há uns 10 anos, as empresas aéreas ainda eram chamadas solenemente de companhia, e uma passagem não garantia o embarque. Já estavam na fila outras cinco ou seis pessoas.

Mas, pouco antes da decolagem, uma moça mandou que eu embarcasse. Sentei na cadeira do meio da primeira fila da direita. Nunca tinha viajado ali. Minha visão era a parede de latão, a meio metro do nariz, que separava os passageiros da área dos comissários.

Um latão cinza, descascado, com manchas de ferrugem. As juntas das emendas pareciam soltas. Os bancos estavam surrados. Mas o que impressionava era a parede de lata amassada. Enquanto olhava a lata, percebi que havia sido o último a entrar. E os outros passageiros da fila de espera? Por que eu, se era o último? Por que me colocaram na primeira fileira diante daquela lata assustadora? E por que a bainha da calça de um comissário estava visivelmente puída?

A Vasp canibalizava os aviões. Tirava parafusos de um para fazer com que os outros voassem. Eu imaginava arames amarrando as turbinas. Quantos anos teria aquele Boeing? Uma mulher ao meu lado examinou a parede de lata e arregalou o olho: e isso voa?

Quase chamei um comissário. Queria perguntar: e os outros da fila? E o que dizem as estatísticas sobre as chances de se sobreviver quase no bico do avião?

O meu atraso era um sinal não percebido? Cheguei em cima da hora porque não deveria embarcar? Criei coragem e chamei então o comissário, pensei em dizer que iria descer. O rapaz se aproximou e eu desisti: pedi apenas um copo de água. Ele trouxe água e guardanapo.

O avião decolou e tive a impressão de que subia sem força, ofegante – mas o que sei eu de aviões? Tentava relaxar. Pensava no ridículo de morrer com um copo de água e um guardanapo, sem ao menos uma barrinha de cereal. Que viagem. Mas chegamos bem.

Conto essa história antiga porque o famoso sucatão de uma empresa americana, que voa de Curitiba para Miami com parada em Porto Alegre, não saiu do chão no sábado. A sucata é conhecida por ter problemas de arranque.

É nessas horas que não tem como não sentir saudade da Varig. Não nos tirem o direito de suspirar pela Varig.

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