Agentes deixaram passar estilete de 9 centímetros em aeroporto

Repórter segura estilete em voo de São Paulo para o Rio

Repórter segura estilete em voo de São Paulo para o Rio

Recolho a lâmina afiada do estilete ainda no escuro, às 4h30, e guardo o objeto junto com canetas num estojo vermelho. São nove centímetros de comprimento desta arma branca potencialmente perigosa. Fecho minha mochila e saio rumo ao aeroporto.

Meu voo de São Paulo para o Rio sairia às 7h desta quarta (20) de Congonhas, na zona sul. Segundo as novas normas federais, eu deveria estar no aeroporto às 5h. Isso significa sair de casa às 4h30 –há quem tenha que partir bem antes disso– e, portanto, acordar ao menos às 4h.

Acordar às 4h é para os fortes, ainda mais porque nós, os fracos, não conseguimos dormir antes das 23h. Às 5h15, já havia feito o check-in. “Vá direto para o raio X porque está demorando”, me alertou um funcionário da companhia aérea. Às 5h17, entro na primeira fila –inédita para mim– para subir escadas rolantes que dão acesso ao segundo andar, onde fica o embarque. Aguardo cinco minutos.

Sigo para a segunda fila, um puxadinho que estreou nesta semana em Congonhas. Agora, o passageiro não segue reto para o raio X quando sai da escada rolante, anda até o fim de um corredor circular. Ali, funcionários instalavam mais faixas para crescer o zigue-zague. Mas no terceiro dia das novas regras, a fila anda rapidamente e dura menos que o esperado.

“Nem precisava ter chegado tão cedo”, dizia um rapaz ao amigo. Após mostrar o cartão de embarque, ingresso na terceira fila, que levaria ao raio X. Um funcionário lê em voz alta as instruções, repetidas quatro vezes em três minutos: “Retirem pertences metálicos e notebooks. Cintos também”. Sacos plásticos para os passageiros guardarem seus pertences são distribuídos.

No raio X, tiro o notebook da mochila –uma das novas regras e o coloco em uma bandeja. “Tiro os sapatos?”, pergunto. Parece não haver resposta correta –olho para os lados e vejo que nem todos são obrigados a fazê-lo. A funcionária, porém, diz que sim, então sigo sua orientação. Em seguida, posiciono minha mochila na esteira. Ansiosa, já aguardo ser delatada pelo raio X. Certamente serei parada, não?

Os agentes que checam as bagagens não identificam a arma que transporto. Minha mochila passa incólume. Enquanto coloco meus sapatos, observo que após passarem pelos detectores de metal, alguns passageiros aflitos são revistados. Essa é uma das inovações de segurança nos voos domésticos. Venço as filas às 5h43. Total da espera: 26 minutos, quase o mesmo tempo para comprar um pão de queijo na área de embarque.

Ali, outras pessoas acima de qualquer suspeita, como eu, comentam sobre o quão melhor seria viajar de carro e como temem os aeroportos na Olimpíada –eles também já temeram pela Copa.

Entro no avião com o estilete na mochila. Felizmente, não pretendo utilizá-lo. Meu voo, marcado para as 7h, parte às 7h17. Chego ao Rio às 8h03, após um périplo de três horas e 33 minutos.

O transtorno que se tolera em troca de proteção, se ela não existe, passa a não valer mais a pena –e a hora a menos de sono começa a pesar. Muito alarde e pouca segurança permitiram minha transgressão. E se outras pessoas fizerem o mesmo?

A Infraero (estatal aeroportuária) informou que acionará a Polícia Federal para apurar o ocorrido no aeroporto de Congonhas.

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